Prazer, meu nome é romance, mas pode me chamar do que quiser. Diversão, tesão, cumplicidade, disposição. Há até quem me chame de Amor.

Respondo por todos eles. Não, não sou megalomaníaco. Também não ache que sou egocêntrico. Posso ser um cara simples. Gosto das coisas simples. Gosto de pão na chapa de manhã, gosto de pé na areia, gosto de vestir moletom, de cabelo bagunçado ao acordar, de beijo na boca, de andar de mãos dadas, de dormir de conchinha, de repetir o bom sexo pela manhã.

Sou bem humorado. Sou musical. Fã dos cinco sentidos. Gosto do cheiro da pele, de arrepiar ao toque, de ouvir lamúrias doces, do gosto de suor depois do sexo; e durante, gosto de olhar nos olhos.

Não, não me ache clichê, mas gosto de puxar a cadeira em restaurante, de pagar a conta no primeiro encontro, de mandar flores, de ligar pra dar boa semana e de fazer a semana boa de fato. Gosto de beijo na chuva, de filme no sofá, de futebol na TV, de pedalar aos domingos. Gosto de dividir pipoca e opinião. Adoro vinho tinto e as vezes um bom pileque.

Mas ando preocupado ultimamente. Tenho sido esquecido. Os tempos parecem outros. Constantemente sou posto de lado.

A tapioca tomou o lugar do pão com manteiga. A chapinha não permite mais tantos beijos na chuva. Pipoca engorda; opinião, cada um com a sua. O vinho tem sido substituído pela vodka e os jantares feitos em algum restaurante japonês da moda.

O sexo, de tão casual, não tem mais rosto. É quase impossível ver algo refletido nos olhos que não seja só prazer. Não há mais tempo para o silêncio do abraço depois do gozo. Não há mais café da manhã. Não há paciência, não há ouvintes.

Não sei mais por quanto tempo vou resistir. A vida corrida, os desencontros e o whatsapp têm me transformado em outro. Parece que até mesmo os poetas me esqueceram.

Estou ficando obsoleto. Já não estou mais em cartas e cartões de aniversário. Os e-mails raramente se lembram da minha existência.

Estou em crise. Não me parece que tenho algum sentido pra viver nesse mundo. Justo eu, que sempre me achei imortal, sinto-me com a corda no pescoço. Estou sufocando. Estou desaparecendo.

Socorro. Estou sem ar, sem lugar! Não, não me deixe morrer!