© Veruska Zanetti

Todos os dias pela manhã ouço o barulho do chuveiro. Pontualmente às 6:45, de segunda a sexta. O banho dura 5 minutos. Quase posso sentir o cheiro do shampoo. Não ouço o barulho de descarga antes. Deve fazer xixi no ralo. Será do tipo ecologicamente correto? Será que toma suco verde todas as manhãs? Não ouço barulho de liquidificador. Talvez tome dos engarrafados, ou tome só um cafezinho preto. Coador ou expresso? E o pão, será com manteiga ou requeijão? Lê o jornal. Vejo sempre um exemplar do Valor Econômico na porta. Será do mercado financeiro? Usa terno. Religiosamente às 8 da manhã fico de prontidão para vê-lo sair. Sei, sei, tenho fixação pelo meu vizinho da porta ao lado.

Ele mudou há mais ou menos 6 meses. Não usa aliança. Pelo menos não consigo enxergá-la pelo buraco da porta. Nunca nos cruzamos no corredor. Não sei explicar por que, mas gosto de espiá-lo através do olho mágico. Saio geralmente 20 minutos depois.

À noite ouço a mesma sinfonia do chuveiro. Homem asseado. Constantemente seu jantar vem de algum delivery da cidade. Corro para o olho mágico. Ele espera o elevador pra ir buscar a entrega. De moletom e camiseta. Ainda mais lindo que de terno. Espio até perdê-lo de vista. Chuto palpites. Hoje deve ser pizza, porque ontem foi japonês, e na segunda o pacote era do Ritz. O que será que ele gosta do Ritz? Será a Salada César? Amo aquele molho com mostarda.

Ele volta com uma caixa nas mãos. Pizza da Bráz. Bingo, pizza! Minha pizzaria preferida. Será abobrinha com queijo de cabra? Penso na Cuca, uma amiga que diz que homem que é homem gosta mesmo é de pizza de calabresa. Sorrio. Prefiro homens que gostam de pizza de abobrinha. Parecem mais sensíveis. Ele liga o som. Música clássica para o jantar. Certamente a pizza é de abobrinha. Adoro música clássica, adoro o molho mostarda do Ritz, adoro pizza de abobrinha, adoro homem de moletom. Adoro meu vizinho da porta ao lado.

Decido que é hora de encontrá-lo. Vou cronometrar meu tempo e amanhã pela manhã pego o mesmo elevador. Isso mesmo, já é hora de transcender o olho mágico.

Acordo pontualmente às 6:40. Ligo meu chuveiro, sincronizado com o do vizinho. Me preparo como se fosse a um evento importante. Uso base para cobrir as olheiras da balada do dia anterior. Tive festa e cheguei há duas horas atrás. Estou na maior ressaca, meu estômago nas costas. Minha cabeça prestes a explodir. Mas não vou desistir. Foram 6 meses até tomar essa decisão e agora não vou voltar atrás.

Abro a porta assim que ouço o barulhinho das chaves dele na fechadura. Saio assim, como quem não quer nada. O elevador chega. Ele sorri e diz bom dia. Retribuo o sorriso com certo exagero. Entramos. Ele está de terno escuro, gravata discreta, um gato. Eu de tailler, salto alto, boca vermelha.

Nosso andar é alto. Vigésimo sexto. Começo a sentir um frio no estômago. Deve ser nervosismo. O frio aumenta, começam as contrações. O frio toma conta do corpo todo. Mais uma cólica. Olho o visor do elevador. Décimo oitavo. E mais uma pontada. Tento desesperadamente o controle. Décimo quinto andar. Respiro fundo.

Ele me olha. Sorrio amarelo. Continuo no controle. Mais um calafrio percorre meu corpo. Oitavo. Tá chegando, calma, tá chegando. Prendo a respiração. Talvez ajude a prender o esfíncter. Sexto andar. Que merda, parou. Entra um garoto de uns 10 anos. Aperta o segundo. Suo em bicas. Me sinto sem ar. O elevador pára no segundo. O garoto desce. Preciso respirar. Preciso sair daqui. Solto a respiração. Térreo. Ele sai do elevador e mais um sorriso de bom dia. Relaxo porque não aguento mais. Posso soltar o que me matava porque o elevador vai fechar, subir e o próximo nem vai saber qual foi o morador que soltou aquele pum.

Aliviada, saio. A porta do elevador fecha. Dou cinco passos e ele esta lá.

– Puxa, que azar, estou atrasado e vou ter que voltar pra pegar o celular que esqueci carregando, diz sorrindo. Aperta o botão. O elevador continuava no térreo.

Hoje moro num apartamento no primeiro andar.