©  Veruska Zanetti

Estou perplexa. Acabo de saber que a batatinha quando nasce não esparrama pelo chão, e que absolutamente nada tem a mesma cor do burro quando foge. Que não é porque tenho boca que posso ter carimbo italiano no meu passaporte. Nem todos que têm boca vão a Roma.

Que não existe Papai Noel, descobri faz tempo. Como chorei!

Foi na fazenda da tia Roró. Eu tinha 4 anos. Esperávamos reunidos na sala a chegada do bom velhinho, a criançada toda. Eu, meu primo Joca, a Mimi, o Carlinhos, o Fúlvio, a Cora, a Fe e a Ju, o Juninho e a Dorô, nossas mães e o Pinguim, cachorro da tia Roró. O pai do Joca, da Mimi e do Carlinhos também estava na sala. A Cora não tinha pai, e o pai da Fe e da Ju estava em São Paulo com a nova família. O meu pai e o tio Jorge tinham ido abrir a porteira para facilitar a entrada do Papai Noel, disse a mamãe.

A primaiada ansiosa esperava o “Santa Claus” pra ganhar os presentes, pedidos nas cartas enviadas por nossos pais ao Polo Norte. O anúncio foi dado. Ouvimos o sininho. Todos eufóricos. Ele entra na sala. Lindo, gordo e com um saco cheio de diversão.

A gritaria toma conta do lugar. O Carlinhos e a Mimi correm em direção ao velho aos berros, tomados de emoção.

Treinado para cão de guarda, Pinguim não teve dúvidas sobre o perigo daquele gorducho atacando as pobres crianças indefesas. O cachorro, furioso, avança no pobre personagem e abocanha sua perna. Num ato desesperado, Papai Noel largou o saco e tentou em vão segurar as calças, puxadas na mordida do cão feroz. Ficou sem calça, sem barba, sem saco, sem identidade. Era papai caído no chão feito um maltrapilho. Além da descoberta da farsa, todos puderam ver a bunda branca do papai.

Traumático. Amargas lembranças da infância.

Dia desses, dormindo nos meus pais, no meu antigo quarto, que permanece intacto na casa onde cresci, meu estômago revirou, tomada do medo causado pelo apito do guarda noturno. Durante anos aquele apito me aterrorizou. Noites e noites no escuro rezando para o homem do saco não conseguir pular a janela e me pegar. Afinal, toda noite aquele apito avisava que ele estava lá fora pronto para capturar as criancinhas que insistiam em ficar acordadas. O apito dava o tom para os pensamentos vindo com a insônia.

Na esperança do sono chegar, eu repetia as canções que meu pai sempre cantava pra gente dormir: “Boi, boi, boi… Boi da cara preta. Pega essa menina que tem medo de careta!”. E mais um apito. Fecho os olhos pro homem do saco não descobrir que ainda estou acordada, e vejo o boi da cara preta vindo em minha direção. Abro os olhos pra afastar a imagem, e o apito de novo me lembra que preciso manter os olhos fechados.

Noites terríveis aquelas. Ainda morro de medo do homem do saco. E de boi.

Hoje descobri que rama é a folha da batata. Que o burro tem sempre a mesma cor. E que Júlio César viveu tempos difíceis. Vaiavam Roma. Mas uma pergunta ainda me perturba: Tostines é fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque está sempre fresquinho?