© Renata Mendes

Saco de areia, meia suja, palavras soltas, assobio nos lábios.

Pés a saltitar, mente vagueia aqui e acolá. Rimas perfeitas para brincar com a vida. Vida essa que nos acompanha até deixar de ser. É nesse trajeto que em muitos momentos acho ela vai embora.

Mas continua.

Por vezes mais arisca, por outras dando saltos no trampolim, arrancando a alegria de dentro. Aquela alegria que só quem é vivo sabe. Das bobagens de segurar na mão para andar na rua, prender o cabelo da criança antes de ir para a escola, olhar o outro enquanto dorme, escutar os mesmos lamentos doloridos, dividir o bolo formigueiro. De ver tudo isso misturado, com a mente aqui e em qualquer lugar.

Saltitando com as meias sujas e o coração limpo. As mãos na areia vendo o tempo passar. E o medinho, lá no fundo esquerdo, da tormenta pulsante, do coração limpo, soltando suas breves palavras:

o tempo não volta…
a vida vai e não retorna…
brinca criança, brinca…
e só se prenda a bo-ba-gens!

Deixa a criança brincar de ser séria, vestida com a roupa de trabalho dos pais, que tardam a chegar. Calçada com seus pés miúdos no salto alto imitando o palhaço ocupado. E, no instante seguinte, a caneta que assinava os maiores contratos para a fábrica de chocolate agora desenha sem saber onde quer chegar, mas encontrando tudo o que precisa.

Deitar na rede levantando os pés, não tão mais miúdos, do chão. No  balanço que arrepia a vida, lembra que voar acontece quando o ar te segura e seus sonhos batem as asas.

Voa, voa, voa… é nessas bobagens que a vida fica, mesmo quando vai embora.

Por isso, sonho… o de padaria!