© Renata Mendes

Adoro a forma como algumas palavras se reciclam. Há uns dez anos, foi a vez da “sustentabilidade”. Todas as empresas que queriam ser levadas a sério tinham, nas suas propagandas ou no seu slogan alguma coisa do gênero. E quem não tinha era visto com maus olhos. Mas depois de se tornar um pouco batida, corriqueira, logo começou a ganhar novos usos.

Em um encontro com minhas amigas solteiras, o papo variava de carreira a cor de esmalte, até surgir o assunto sexo. Algumas do grupo reclamavam que os homens não querem nada sério, que só querem uma transa e sumir. E eis que surge o melhor comentário da noite. Carla, a mais quieta da turma, que namorou durante anos, cansou da vida monogâmica e está solteira por opção — como ela própria se define —, começou a teoria do momento. Disse que tínhamos que ampliar a nossa visão do que era se relacionar e que, se soltássemos o freio de mão, iríamos descobrir o que era o “dar sustentável”.

Todas, sem exceção, ficaram quietas, ouvindo a nova mestre falar. Segundo ela, todas as pessoas querem fazer sexo e, se olharmos o sexo somente como sexo, tudo ficará mais fácil. O problema é que algumas mulheres vinculamos o sexo ao carinho, aos relacionamentos, às carências, e isso gera um problemão, porque ao transar já queremos um namorado, um príncipe e, claro, aquela tal ligação no dia seguinte. Logo, se você está a fim de dar, dê. Mas dê sustentável! Se ele ligar e aquilo virar um romance, ótimo! Se for só aquela noite e você nunca mais encontrá-lo, sustente, segure a onda e assuma a responsabilidade de que você deu porque quis. Então, aproveite enquanto durar.

O ar praticamente congelou na mesa. Não só na nossa, mas também na mesa ao lado, cheia de homens. Para falar a verdade, eles quase levantaram e aplaudiram. E nós, aproveitando o momento de entusiasmo deles, perguntamos o que pensavam sobre o assunto. Entre algumas bobagens e frases de efeito, a conclusão foi uma só: eles estavam amando esse novo comportamento feminino em grande escala. Para os homens, pelo menos naquela mesa, as coisas eram mais simples e objetivas em comparação ao universo da mulher. Como, por exemplo, tentar adivinhar o que uma mulher quer – é praticamente fazer uma corrida de aventura no Alasca, por mais que você se prepare, sempre vai ter um imprevisto que pode te fazer perder tudo o que conseguiu até o momento.

Algumas concordaram. Outras continuaram achando isso bonito somente na teoria. Na hora de ir embora, algo estranho aconteceu: um súbito brilho no olhar de Flora, mais conhecida entre nós como “Pudica”. Com seu celular na mão, falou baixinho no meu ouvido: “É hoje que vou por em prática essa sustentabilidade sexual. Estou indo para casa encontrar um gatinho. Se o ‘dar sustentável’ não der certo, pelo menos o delivery já deu”.