© Renata Mendes

Judite era aquele tipo de pessoa que acreditava em tudo que lhe diziam. Não era por ingenuidade, mas tinha para si uma crença de que nunca alguém poderia inventar algo que não fosse verdade. Para se ter uma ideia, ela deixou de acreditar em Papai Noel por volta dos 16 anos, quando foi se sentar no colo do bom velhinho e ele não parava de acariciar suas coxas. Voltou correndo para casa, chorando, e sua mãe explicou que era ela quem deixava os presentes debaixo da árvore todos os anos.

Ao entrar na faculdade de letras, achava que todos aqueles romances que lia poderiam se tornar realidade. Até sonhava acordada nas aulas do professor Mathias, um sujeito nem muito velho nem muito novo que usava um paletó de veludo marrom e tinha sempre a barba por fazer. E ele sentia por Judite uma certa compaixão, pois lendo os textos que a moça escrevia, entendia que dentro daquele castelo da Cinderela morava uma outra pessoa, que demonstrava paixão, um ardor e até um certo erotismo.

No final do semestre, chamou-a para conversar após a aula. E sabe como é final de semestre na faculdade, né? Tudo termina num bar com uma cerveja gelada, verdades aumentadas e mentiras mascaradas pelo cotidiano. Ela se apaixonou. Ele também.

E terminaram no quarto dela, no apartamento que dividia com mais três amigas de infância.

Começaram e terminaram para sempre algumas vezes. Ela chorava e ele pedia desculpas. Ela sorria e eles voltavam para a cama, onde tudo começava novamente.

Até o dia em que Judite parou de acreditar em Mathias e começou a acreditar nela mesma. Convenceu-se que Papai Noel não existia e que os romances era ela quem inventava.