©  Renata Mendes

“Na montanha não existe democracia. Se um tiver que voltar, voltamos todos. Ninguém fica sozinho. Agora somos uma família.” Aquelas palavras entraram nos meus ouvidos com um misto de alívio e de terror. Há meses uma amiga havia me falado sobre esse tracking, e a descrição que ela fez me deixou simplesmente encantada e com uma vontade enorme de fazer algo que nunca tinha feito antes. Aliás, este é um ano em que o diferente virou lei! Os cinco países dos primeiros doze dias do ano já anunciavam o tom do que viria pela frente: muita viagem, muito improviso e muita coisa nova.

Sabia que precisaria estar com meu corpo pronto para esse desafio e, desde o momento em que me decidi a fazê-lo, comecei a me preparar. E só depois fui descobrir que não existe preparo para a altitude, a não ser a própria altitude. Vivendo em São Paulo isso seria um pouco difícil. Mas, de qualquer forma, intensifiquei as atividades físicas, criando a possibilidade para o meu corpo aguentar uma subida íngrime por mais de duas horas.

Alguns dias antes da subida, já perto da montanha, começou a ambientação com caminhadas e pedaladas acima dos três mil metros. É interessante perceber como é vital o ar quando ele se torna raro, ou menos fácil. A sua existência é tão óbvia que nem me preocupo com ele.

Mas quando subo um morro pequeno, tento encher os pulmões com toda a força e nada acontece. Lógico que a primeira coisa que vem à minha mente é: “acho que meu corpo não está pronto para o tamanho desse desafio. Se não consigo subir esse morrinho, o que acontecerá na subida de um vulcão de 5.600 metros de altitude”. Fiquei um pouco mais tranquila quando explicaram que as palpitações, a falta de ar e as dores de cabeça eram completamente normais no processo de adaptação. Respirei aliviada, com pouco ar, mas aliviada. Estava apenas com um sintoma, previ como um bom sinal.

No dia “D” recebi uma mensagem de incentivo da minha amiga, a que falou sobre o tracking, dizendo que a única coisa difícil seria a respiração, e segundo ela eu era profissional no assunto. Na mesma hora meu estômago ficou pequeno. Percebi que o que definiria a minha chegada ao topo não seria meu corpo, nem minha respiração, mas sim a minha mente. Se o medo tomasse conta, e era o que estava acontecendo, tudo falharia.

Assumi uma atitude interna importante. Confiava no meu corpo. Confiava na minha mente. Confiava nos meus guias montanhistas. O resto, deixei acontecer. Mantive meu próprio ritmo junto com o grupo e, principalmente, a humildade. Na montanha me senti pequena e sem qualquer controle externo. A cada passo acima sentia a gravidade me comprimindo e a força dos meus músculos me empurrando adiante. O ar era escasso e frio, mas foi o suficiente. Quando começaram meus devaneios, fizemos uma parada.

“Não importa quantos metros faltam para chegar porque nunca saberemos se vamos chegar ao topo. E sim o quanto caminhamos até agora. Olhem para trás. Tudo o que aconteceu até agora nas nossas vidas, no nosso passado, com os nossos ancestrais, nos trouxeram até aqui. Já foram 5.300 metros.”

As lágrimas tímidas escorreram no meu rosto todo coberto para protegê-lo do frio. Já ouvi falar que em um momento de quase morte, um filme passa na sua cabeça. Incrivelmente, nesse momento de muita vida e também de limite, eu vi todo meu passado lá atrás, pequeno e não tão problemático assim. Então, pude deixar o passado no passado, junto com as árvores e casas que agora tinham se transformado em pontos quase borrados, distantes de tudo o que era real naquele momento. E segui em frente. Passo a passo. No meu ritmo.

O topo não foi a grande conquista para mim, e sim como eu passei a enxergar o horizonte. Foi um mar de montanhas, de deserto e de espaço ao meu redor. Senti o ar me abraçar com sua densidade.

Agora entendi: nunca estamos sozinhos!