©  Renata Mendes

Crônica em homenagem ao Luis Henrique Pellanda.

Compartilhar sonhos é aquela coisa que se faz no círculo de pessoas mais próximas e queridas. Porque sonho não é só uma ideia ou um lapso de criatividade que surge no meio da madrugada como um milho que se torna pipoca. Às vezes pode até começar como uma ideia, mas pensada um pouco melhor no outro dia, adicionando-se um ou outro toque mais extravagante da sua personalidade, de loucura surrealista, e o que era apenas uma ideia não verbalizada assume sua forma. A forma do sonho. Do sonho acordado, da realização.

Mas como para tudo na vida, existe uma exceção.

Compartilhamos sonhos e eles são roubados. Roubados na percepção de quem compartilhou e não realizou, e vê o outro fazer exatamente o que você tinha traçado. Mas também podemos compartilhar sonhos com um estranho no meio da praça e voltar com parte desse desconhecido conosco. Um misto de impermeabilidade com atração. Ou seria falta de coragem em decidir pelo sim ou pelo nunca?

Não sei. Quando se trata de realizar sonhos, me dá um medo danado. Sabe aquela sensação de andar em direção ao arco-íris e, por mais que se aproxime, se está sempre longe?

Acho que essa é a função do sonho, de nos fazer caminhar. Caminhar e deixar que o caminho nos encaminhe. Deixar que o gosto mude pois se experimentou novos sabores. Fazer homenagens a desconhecidos.

Os encontros desse caminho dos sonhos podem ser de apenas instantes para marcar toda a vida. Como aquela borboleta amarela que cruzou o meu caminho no costumeiro passeio de domingo. Nunca mais a vi mas jamais esquecerei como passou por mim. Assim como muitos que não sei o nome mas lembro da fisionomia. Se por um acaso encontro novamente, penso que já conheço. Talvez do caminho. Talvez do sonho. E assim se faz a vida…

De súbito, um senhor interrompe meu devaneio com uma pergunta que não vi de onde veio.

– Você tem filhos?

Respondo que sim, com um sorriso nervoso. Ele desanda a contar sua história. Queria ter filhos e tentava há anos. Mas, desiludido, já não sabia se continuava atrás desse sonho. E quase como num monólogo chegou a conclusão que de sonho não se foge.

– Qual é seu nome?

– Luís – respondo.

– Seu eu tiver um filho, vou chamá-lo de Luís. Obrigado!

Pronto! Mais um sonho compartilhado, e o meu nome se foi com ele e com seu sonho.