©  Renata Mendes

Xikong morava em um povoado distante no interior do Camboja. Essa menina tinha o estranho hábito de acordar sorrindo e sair pelo campo dando bom dia aos pássaros, flores e até para as minhocas. Sua família não entendia o motivo de tamanho contentamento pois, pela situação precária onde viviam, não havia motivo. Mas mesmo assim todos os dias, como um ritual, saía andando quase sem tocar no chão, imitando uma borboleta.

Nas suas tardes livres, depois de ajudar a mãe a colher arroz e cuidar dos afazeres domésticos, a pequena sonhadora se perdia nas histórias que criava em sua mente, vendo as nuvens passarem no céu. Surgiam heróis, princesas e dragões. Ela chorava, gargalhava e muitas vezes saia correndo de medo de sua imaginação.
Até que um certo dia seu irmão mais velho sumiu. Seu pai perdeu o brilho. Sua mãe murchou. O arroz começou a secar e os pássaros não apareciam mais para trocar gentilezas matinais. As chuvas das monções começaram a escorrer pelo olhos de Xikong, transformando todo seu vilarejo em lama. Época difícil aquela, pois a culpa invadiu seu coração levando o sorriso embora. Não existia mais bom dia. E as nuvens eram sinal de novas tempestades.

Caminhando pela estrada proibida, perto do rio que agora era lama, a menina foi surpreendida por uma coisa inesperada… Uma flor! Desconfiada, olhou para os lados e, sem sinal de outros seres por perto, se aproximou para ver aquela flor branca no meio do lamaçal. Quanto mais perto chegava, maior a flor ficava. E dentro dela havia uma pérola preta e outra branca.

Na pérola preta estava escrito: “dessa dor o tempo cuida”. Na pérola branca: “você nasceu para ser feliz. Divirta-se!”

Assim, como um passe de mágica, Xikong voltou a sorrir. E com ela, os pássaros, as minhocas, as flores, o arrozal voltaram a ter vida, muita vida…