© Renata Mendes

Antigamente era preciso ir ao dentista uma vez ao ano para ver se não tinha nenhuma cárie, tártaro e outros nomes que não sei pronunciar. De uns anos para cá, passou a ser obrigatório ir de seis em seis meses.

Sou diferente de grande parte das pessoas que conheço, gosto de ir ao dentista. O meu é um senhor super simpático que adora conversar durante a limpeza dos dentes enquanto estou de boca aberta. Quando tento responder, quase molho minha roupa inteira de baba misturada com algum tipo de antibactericida.

Temos o mesmo gosto musical: jazz, blues e música clássica, ótimas para essas ocasiões em que é preciso ficar passiva e sem qualquer tipo de interferência nos procedimentos.

Após esses anos, desenvolvi uma técnica de responder mexendo os olhos. Quando fecho os olhos com força, significa que, nos assuntos mais sérios, estou concordando. Quando pisco somente com um olho (só sei piscar com o olho direito), significa que eu entendi, concordo e ainda estou fazendo uma graça. Agora, quando não pisco, é porque tem algum suspense no ar.

Isso aconteceu quando meu querido dentista me contou que, aos 75 anos, tinha um sonho que talvez jamais se realizasse: ter um piano-bar, coisa muito famosa em seu tempo de juventude. Ele tinha até imaginado como seria, com algumas mesas baixas, poltronas confortáveis para apoiar os braços, um piano que podia até ser de meia cauda, um ar de sala de estar de casa a meia luz, e uma boa carta de vinhos e drinks para ouvir a música selecionada por ele.

Escutando atentamente tentei sorrir, mas era quase impossível perceber com a boca aberta. No final da consulta, depois dos parabéns, ganhei amostras de pasta de dente e recebi a proposta de ser a sócia dele no piano-bar. Disse suavemente:

– Gostamos do mesmo estilo de música, seria uma experiência interessante e a realização de um grande sonho.

Com um sorriso e uma piscada longa, agradeci a proposta e as pastas de dente. A resposta ficou no ar, mas deixei o consultório pensando: qual é o sonho que quero já ter realizado aos 75?