Por Luís Henrique Pellanda

É a primeira vez que apresento um escritor de muitas cabeças. Quantas, não sei ao certo. Cada uma atende por um nome, mas o escritor, em si, não responde por nenhum deles. Simplesmente não se responsabiliza, apenas senta e escreve, mão após mão após mão. É um escritor literalmente tentacular e, falando assim, até parece que me refiro a uma besta-fera, horrível e perigosa. Mas não, ou melhor, nem sempre, ou ainda melhor, quase nunca. Porque uma das vantagens de ser muitos é ter vários corações. Quando um deles falha, um segundo o socorre. Quando um terceiro afunda na sombra, um quarto ou quinto se põe a bater e brilhar por ele. E aí o organismo se ilumina.

Conheci estes corações em julho de 2014 e dou fé: eles existem, e resistem. Sorte minha tê-los visto em ação; só assim para eu, ímpio, crer em tamanha boa vontade. Fui dar um curso de crônica na Oficina de Escrita Criativa, em São Paulo, e eles me esperavam por lá, ainda cuidando de suas individualidades. Fazia frio e chovia. Lembro que, ao redor da mesa, relampejava, e que, só depois de oito noites, pude perceber o que eu estava ajudando a gestar. Criávamos o monstro. Uma criatura que hoje, com pouco mais de um ano de vida, é um dos meus maiores orgulhos.

A crônica é um gênero que muitos relacionam ao eu. Não estão de todo errados. Mas, ao fazerem isso, é comum que se esqueçam do papel do outro em nossa escrita. Pois esse escritor cujo nome desconheço, e que venho agora apresentar a vocês, ousou pensar a crônica na primeira pessoa do plural. Crônicas coletivas? É uma loucura, claro; praticá-las é um exercício para doidos ou desapegados, é como se vestíssemos as almas uns dos outros com a intenção de as lacear ao máximo, até que, de tanto uso e abuso, elas se acomodem a qualquer corpo.

É uma experiência, sim, e das mais difíceis, o que me faz lembrar de uma velha entrevista com Katherine Anne Porter, que li dia desses. Nela, a escritora dizia que toda literatura é experimental, sempre, e é por isso que ler e escrever vale a pena. O trabalho deste cronista múltiplo de que estou falando é isso mesmo: um esforço experimental e também social, de convivência, compreensão e amizade.