© Marise H Louvison

Olhou para as mãos para verificar se havia alguma pele de cutícula levantada. Odiava ter qualquer parte de seu corpo em desalinho. Casca de ferida na perna e no braço, jamais. Sua integridade poderia estar em jogo. Os cabelos levemente desarrumados compunham a figura construída de descompromisso. Isso podia.

Zeca Bastos saiu do Ideal Hotel com passos curtos, porém rápidos, para não ser visto. Pediu para que o motorista lhe pegasse em frente ao majestoso George V. Na Avenida General Leclerc, nunca! Um bairro sem glamour, jamais. Como Ulisses, continuava um simulador. O importante era tornar mística a viagem sonhada a Paris, que mereceu muitas ameaças aos céus, caso não se realizasse. Conhecer o todo poderoso Charles Antoine Orfèvre era o mote de sua existência, desde o dia em que recebeu o convite em sua caixa de mensagem do correio eletrônico.

Ainda com um semblante de preocupação temendo ser reconhecido, sabe-se lá por quem, mergulhou nas escadarias do metrô Porte d’Orleans. Sentiu-se mais aliviado com a chegada do trem. Como bom pintor e desenhista moldava no ar, com olhos fechados, a figura de seu anfitrião. Alto, largo, nariz grande, lábios finos, olhar intenso, homem de bom gosto, conversa prazerosa, bigode, um verdadeiro marquês, concluiu. Abriu sua agenda moleskine e com traços rápidos dava vida a seu mito, ao seu fetiche.

Percebeu que ainda faltavam duas horas para o encontro. Em um bistrô, café e tarte tatin, pedidos com voz rouca e com palavras esticadas, como se todas tivessem mais de 10 sílabas, compondo seu ar afetado. Fingia calma para esconder seu desassossego. Batia os dedos na mesa para mostrar descontração. Passava a língua nos dentes para evitar que ficassem sombras em sua alva dentadura original.

Balançou as pernas, cruzando-as, para que seus sapatos Prada ficassem em evidência. Sorriu levemente para disfarçar o imenso prazer em ver a grife estampada na ponteira do calçado. Mais uma vez a lapiseira veio socorrê-lo em seus riscos e rabiscos na busca da alma do oráculo Charles Antoine. Ao pagar a conta, confundiu-se com moedas e trocos.

Agora seu caminhar era mais lento, porém firme para fingir dignidade. Em uma pequena livraria, distraiu-se folheando os livros de arte empilhados em uma mesa próxima à porta. Com as sobrancelhas cerradas fez com a boca um pequeno bico enquanto acompanhava o vai e vem de jovens muito ruidosos para a sua paz interior. Solicitou ajuda do atendente da loja à procura de um título que acabara de inventar. Sentiu a pele de Charles próxima à sua. Daria tudo para saber seus pensamentos.

Reconheceu o motorista que o aguardava na Avenida George V, segundo os dados que lhe deram. Com sua voz rouca e palavras esticadas, trocou conversa sobre a distância e o percurso. Pela janela do carro, via as imagens que passavam, mas continuava ansioso para a revelação do rosto desconhecido. Figuras de caleidoscópio alternavam-se em sua mente.

No destino, ao sair do carro, alisou os cílios, fingindo tirar um cisco. As portas se abriram a cada passo até chegar à última. O local asséptico e minimalista o constrangeu, obrigando-o a interromper sua marcha. Uma dor forte parecia cutucar seu ventre. Com a fronte erguida deu de ombros. Agora o retorno inexistia. Uma luz vinda de uma das janelas golpeou sua vista. Estaria só naquele espaço lúgubre?

Havia uma mesa e cadeiras. Foi incapaz de enxergar o senhor Orfèvre sentado em uma delas. A diminuta criatura não tinha pernas. Apenas suas partes superiores, acima da cintura, lhe davam uma aparência mais harmônica. Charles ajeita a aba do chapéu, muito maior que sua cabeça, pula da cadeira onde se encontra e sobe em uma pequena prancha de skate adaptada às suas necessidades, aproximando-se para cumprimentar o visitante.

Zeca Bastos, envolvido na cena bizarra e tendo em mente a inexorabilidade do acontecimento, vaticinou, da mesma forma que um mistificador de volta à Ítaca: que máximo! Estou diante de Toulouse-Lautrec reencarnado! Balança a cabeça e com o queixo para a frente estica a mão para os cumprimentos!

No ar apenas um sorriso amarelo.