©  Marise H Louvison

Ao sair do banco passou a mão pelos cabelos como sempre fazia. Era um gesto impensado e rotineiro para marcar sua timidez, ou neurose. Houve um momento de dúvida. Não sabia se virava à direita ou à esquerda da rua. Optou pela Travessa Marconi e seguiu em frente.

Não fixou nenhum rosto que cruzava. Sua mente viajava ao mesmo tempo em que uma angustia apertava sua garganta. Talvez o ideal fosse voltar à Paris e caminhar pelas alamedas que trazia na memória. Lembrava-se da roupa que vestia no dia, naquele fatídico dia. Sabia de todos os detalhes do sapato e os pormenores da capa creme que a protegia da fina chuva que a perseguiu desde a hora que bateu o grande portão de ferro do edifício em que morava. Balançou a cabeça concordando consigo mesma que a cena revivida pertencia ao século passado e que nada seria resgatado.

Esperou o sinal de pedestres e atravessou uma grande avenida. Fez um esforço de memória para se lembrar do nome da via repleta de personagens urbanos, tão característicos da metrópole ensandecida. Buscou placas nos muros e paredes e não teve sucesso. Quando criança seu pai gostava de levá-la ali para lanchar em uma grande confeitaria, que há tempo não existe mais. Sentiu o sabor do doce colorido que comia, mas não se lembrou do nome do doce, nem da doceria, e muito menos do nome da avenida.

Poderia comprar um apartamento para cada sobrinho. Afinal, eram cinco. Se cada apartamento custasse trezentos mil reais, o total seria de um milhão e quinhentos mil reais. Perfeito. Era só procurar um prédio em lançamento e tudo estaria resolvido. Quem sabe o Antônio, o corretor de terno esquisito e gravata estampada multicolor, porém eficiente, teria esses imóveis. Colocaria tudo como uso-fruto dela ou faria as escrituras no nome deles? Apertou os olhos para procurar um café onde poderia sentar e fazer as ligações necessárias. Alguém lhe parou para perguntar sobre um endereço. Ela não sabia a resposta e esqueceu definitivamente a tal história das doações.

Avistou o letreiro do metrô e desceu as escadas rolantes. Viu um cartaz com pessoas felizes em um cruzeiro pela Grécia. Tentou mergulhar naquele clima de bem-estar. O gosto amargo voltou na garganta. Emergiu, passou a catraca e entrou no primeiro vagão.

Poderia cruzar os Estados Unidos de leste a oeste, ou pegar o Expresso Oriente da Rússia até a China, ou mesmo conhecer a Austrália, ou até quem sabe, nada, porque a angústia voltava sempre.

A voz do alto-falante acordou-a, avisando que sua estação de descida estava próxima.

Restava ainda a fazenda dos seus sonhos de menina, com gado importado e laranjal por todos os lados. Um caminho repleto de ipês amarelos, onde seu carro importado passaria quando voltasse da cidade. Teria ainda o cavalo amigo, que cavalgaria todas as manhãs. Pensou que poderia colocar o nome de Frederico no tal manga-larga. É. Frederico lhe cairia bem.

De repente um súbito fluxo de risos. Será que todas as pessoas em pé em volta dela poderiam imaginar que era uma milionária com dez milhões de dólares no banco? Bastou apenas uma aposta pífia de quatro reais, que fizera na pequena lotérica dentro de um shopping, depois de achar o papel já marcado com os números da sorte no chão de uma lanchonete. Naquela tarde, ela queria mesmo era uma solução para pagar uma dívida de mil reais. Agora com a dívida paga ainda lhe restava um estoque de dinheiro, que provavelmente não caberia em sua diminuta vida.

Passou pelo porteiro e mal esboçou um sorriso. Em sua casa apenas os versos do poeta que não lhe saiam da cabeça. Chegou perto do fogão e recitou: “e quando seu bem-querer dormir, tome conta que ele sonhe em paz, como alguém que lhe apagasse a luz, vedasse a porta e abrisse o gás”.

Não se sabe até hoje se alguém reclamou o corpo.