©  Marise H Louvison

Sentada no banco da estação Brigadeiro à espera do metrô destino Vila Prudente viu um novo emoticon em seu celular. Era uma figurinha diferente que passeava pela tela sempre de olho em seu próprio relógio de bolso. Ficou intrigada com o colete xadrez e fixou tanto o olhar que não conseguiu conter a força que a puxou para dentro do smart. Sem compreender o que acontecia, viu uma foto do Justin Bieber no Instagram e teve muita vontade de guardá-la para si, quando percebeu que estava do lado de dentro dos bites do programa, envolta em alguma nuvem do Google ou mesmo da Apple. Pensando no ídolo, se deixou levar pela queda enquanto treinava uns passos ritmados que aprendera em sua última balada.

Ao final da viagem, talvez ao centro do mundo, aterrissou em um ambiente pequeno e escuro. Teve a sensação de ver novamente o mesmo coelho emoticon, agora preocupado em chegar atrasado a um encontro marcado com sua amiga duquesa do Facebook. Ao segui-lo, descobriu uma portinha que dava para um jardim. Curiosa com um canteiro de erva nada conhecida em seu mundo noturno na Augusta baixa, arrancou e mastigou freneticamente as folhas de um galho que entravam no espaço em que estava. Uma confusão mental lhe subiu de forma vertiginosa à cabeça, deixando-a na dúvida se vivia fantasias eróticas ou contos infantis. Na dúvida, Alice passou a encolher e a expandir como um telescópio, de acordo com as variações de sua transcendência e no seu hábito de viver duas pessoas.

Tão certo como doninhas são doninhas, e sem chaves mágicas de ouro, ela optou em cortar alguns caracteres do Twitter na busca desesperada de encontrar uma saída, pois já estava cansada de ficar sozinha naquele e noutro mundo. Com a ajuda de uma pen drive de um terabytes, atravessou um córrego, que lembrava um mar azul que nunca vira antes, e participou de chat no Skype entre as mais varadas categorias do reino animal. Sua Matrix estava formada com os aplicativos do chapeleiro maluco e da lebre de março, que ao trocarem de lugar na mesa de chá trouxeram a lembrança do panorama político absurdo em que vivia e do enunciado do teorema sobre a verdade de que um relógio parado é mais preciso do que outro que atrase um minuto por dia.

O mais importante agora era jantar no Gato que Ri do Largo do Arouche e continuar na busca insana dos caminhos que a levassem a qualquer lugar, desde que não estivesse lá a Rainha de Copas, que lhe cortaria a cabeça por estar assassinando o tempo.

A voz no autofalante anunciou a última estação da linha verde. Os olhos esbugalhados de Alice permaneciam grudados na tela do celular, ouvindo alguém dizer “quem sou eu? Uma tartaruga falsa?”.