©  Marise H Louvison

Um batom nos lábios foi suficiente. Recusa-se a sair na rua com os lábios pálidos, sem o vermelho vibrante. Só vai até ali, nada será acrescentado, porque o nada será sempre o mesmo. Os vincos do rosto de Camila permanecerão para sempre. O vestido estampado com flores apagadas de tanto lavar ainda é aquele que usava quando desligou a última chamada telefônica de seu emprego de secretária no escritório de contabilidade Afonso & Afonso. Lembra-se de pegar a carteira azul ensebada de tanto uso. Lá tem moedas, uma nota de vinte reais bem dobrada para ninguém ver, um santinho de São Bento para afastar as assombrações, e uma lista com os telefones de emergência – medo de ser enterrada como indigente. Pega a sombrinha com estampa de fadas e príncipes que ganhou quando criança. Tem o cabo de cor púrpura. Combina com as meias que sempre veste com a única sandália que possui.

Camila anda a passos pequenos. Camila para. Esbarra sem querer no seu Talarico, zelador do prédio, e aproveita para pedir uma mãozinha com o encanamento da pia da cozinha. Entra na padaria Santa Edwiges. Conversa com a moça que vende os sonhos, quentinhos, derretendo creme inglês e açúcar. Sonha com os sonhos. Vai comprar dois e ficará bom tempo só olhando aquela beleza feita pelo diabo, e depois comerá pedaço a pedaço a cada cinco minutos. Maná do céu acompanhado por uma xícara de café feito no coador de pano. Olha para os brioches e recorda Maria Antonieta na guilhotina.

Chega à faixa zebrada de pedestre. Vê ao longe o capacete de um ser interestrelar reluzindo. O verde do sinal é convidativo. Inicia a marcha com seus passos curtos e lentos, com os olhos pregados no bólido que se aproxima com sua roupa aderente preta com três listras de cada lado. A rua é larga e o ser cósmico em duas rodas está cada vez mais próximo sem reduzir a velocidade. Apenas um som seco no ar. O pacote se transforma em uma pasta amorfa. Não há mais sonhos. A carteira azul ensebada é atirada para dentro do buraco do esgoto.

Mais uma indigente é engavetada no necrotério da cidade.