©  Marise H Louvison

Às vezes olho para o bico do meu sapato e uma pergunta surge: por que comprei sapato com bico fino? Era só o que me faltava, sapato com bico fino. Você também não gostaria. Será que conseguirei correr com ele?

Escrevo-lhe porque vi papel e lápis sobre a mesa. Lembra-se daquela brincadeira a moda antiga? Pois é. Deu vontade. Já cruzei várias vezes o quarto, talvez medindo a hipotenusa dos triângulos desenhados no chão pelo sol. É sim aquela fórmula que está tentando recuperar em sua mente: a soma dos quadrados é igual, e por aí afora.

Deito no sofá. Fomos juntos até a tapeçaria para escolher um novo tecido para deixar o escritório mais alegre e convidativo, palavras básicas usadas por nós quando o vendedor se aproximou. Demorou quase dois meses para trazerem o móvel de volta. Enquanto isso, usamos as almofadas trazidas de Jodhpur em nossa viagem pela Índia, em 2010, Você insistia nas estampas de Ganesha e eu fiz a opção pelos elefantes. Um pouco cansativa, não? Digo a viagem não a almofada. A espera pelo sofá também nos deu um cansaço danado, assim como sinto o desalento na demora da campainha tocar.

Ouço gritos no corredor. É a vizinha do cinquenta e quatro, que continua escandalosa com os cachorros quando chega do serviço. Outro dia tentou puxar conversa no elevador. Tentativa abortada ao perceber meu simulacro. Os gritos persistem.

Minha tosse continua dissonante. Não me venha com a história do cigarro. Sei de cor. Conheço quando tusso a nicotina. Essa é diferente, talvez a secura.

Chamada no celular. Acho que é a Denise F. Estranho, não? Parece que se separou daquele ogro que a acompanhava por todos os lugares. Não entendi o propósito da ligação, mas tentei permanecer na neutralidade não respondendo o chamado.

Penso na morte e recordo o enterro do Tuto. Todo mundo da turma de 85 da engenharia civil da Poli estava lá. Velhos e barrigudos. Sempre chegava alguém lembrando alguma historinha engraçada daquele tempo e sussurrava ao meu ouvido. Disfarcei atenção, enquanto meus olhos permaneciam grudados na porta de entrada do velório procurando por você. Porém, meus olhos agora ardem e lacrimejam.

Recuso-me a assobiar a nossa música preferida. É mais do que lugar comum, é muito clichê, e com sinceridade, procurando no fundão da existência, não havia música nenhuma e eu nem sei assoviar e minha voz está fraca de tanto gritar.

Esqueci a televisão ligada. Que ideia! Desligo tudo que há em volta, computador, TV a cabo, cafeteira, torradeira, forno elétrico, micro-ondas, som da sala, som do quarto. Neurose com curto-circuito.

Termino a carta. Não me ocorre mais nada. Fica combinado que ainda há amor em mim por você, apesar do fogo que devasta o edifício. As labaredas invadem a janela e não consigo abrir a porta. Volto para o sofá.