©  Marise H Louvison

Estou com sintomas de Elizabeth Bishop. Acabei de inventar essa, por ser sua admiradora compulsiva. Já li tudo o que foi publicado, suas obras e sua vida, em português e inglês. Ela tinha plena compreensão da importância da poesia. Odiava que a chamassem de o maior poeta feminino. Retrucava que isso era simplesmente ridículo. Nascida nos Estados Unidos, uma vez iniciou uma viagem pelas Américas, mas interrompeu-a no Brasil e por aqui ficou por mais de uma década. Talvez em razão disso sinto-a tão próxima.

Onde eu entro nessa história? Elizabeth, às vezes, passava meses e meses com apenas uma palavra escrita no papel. Acreditava na necessidade da poesia ser exata. Bem, essa não é a minha teoria, mas não estou conseguindo nem escrever uma única palavra. Ando em recessão completa.

Ainda segundo a poeta, não se pode escrever poesia seguindo um cronograma, pois um bom poema surge raramente. Essa teoria se aplica à crônica, ou o cronista tem que escrever dentro de um tempo definido. Se for assim, minha carreira acaba por aqui.

Fico pasmada o dia inteiro pensando sobre qual tema escrever. Tenho lapsos em que abro meu laptop na certeza da produção, entretanto, quando avisto a tela em branco, sempre encontro motivos para fazer outra coisa interessante, ou não. Bishop também levava tempo para produzir doze versos. Ganhou o prêmio Pulitzer. Será que um dia também serei laureada pela minha procrastinação?

O certo é que na produção da crônica, assim como na criação do poema, não adianta apenas querer, porque além da lucidez, interferem outros fatores incontroláveis, que se poderia chamar de espanto.

E de espanto em espanto escrevi cinco parágrafos. É. Coisas surpreendentes acontecem, apesar das nossas expectativas.