©  Marise H Louvison

Conheço Zeca Bastos há pelo menos trinta anos, dos ancestrais tempos de Brasília. Amizade sólida a base de muita biodança, terapias de máscaras estilo Persona, viagens ao exterior, cursos de tarô e outras encrencas do mundo atual. É um sujeito curioso, permanece bom tempo de boca fechada e quando resolve abri-la muitas teorias são verbalizadas. Nasceu no interior do Maranhão, mas sua tendência ao contemporâneo logo o transformou em um urbano cult. Às vezes usa sandália de couro da Torre de TV, ponto turístico da capital federal, em outras ocasiões me surpreende calçando Dolce & Gabbana. Só tem um hábito condenável. Depois que assentei teto em São Paulo, antes de sua viagem à metrópole, a trabalho ou a turismo, ou, como sempre reforça, para me ver, fuça na web até localizar algo para providências minhas antes de sua chegada.

Desta vez não foi diferente e saiu com uma história de um arranjo de ikebana que eu deveria retirar na Fundação Mokiti Okada, localizada na Vila Mariana, Rua Dr. Fabricio Vampré. Lá fui eu em pleno dia de rodízio da placa do meu carro me aventurar nos transportes metropolitanos. Arregalei os olhos quando vi o tamanho da encomenda. Aquilo encobria todo o meu rosto, além de ser embaraçoso para carregar. Subi a inclinada rua Joaquim Távora, cuspindo ultrajes a meu amigo porque não sobrava mão nem para arrumar o cabelo que caia nos olhos. Pior ainda é que só me restava como opção o metrô Ana Rosa, estação esquecida pelo deus das escadas rolantes. Alguém me localizou por detrás da natureza para perguntar como chegava ao Tucuruvi. Tive que apontar com o queixo a direção que a jovem deveria seguir, não sem antes dar longas baforadas de cansaço.

Quando cheguei à plataforma da linha verde – curioso o hábito dos paulistanos de colorir seus trajetos –, me deparei com toda a população da cidade à espera do trem. Rostos zangados, insultos ao governo, desalento, pessoas filiformes, obesos, cegos e cadeirantes, mochilas vazias e lotadas, celulares, e eu com aquele espalhafatoso objeto, desviando do tumulto armado. Nunca usei tantas desculpas e perdões em minha vida. Calculei o percurso até onde deveria encontrar o Zeca. Pelo menos 2.000 metros me distanciavam do Hotel Meliá, na Avenida Paulista, próximo à rua Bela Cintra. Aproveitei o rolo compressor e embarquei no vagão que, aberta a porta, despejou para fora uma massa anárquica permitindo que outra, em igual tamanho, entrasse. Não havia lugar para o meu pé e muito menos para o desajeitado embrulho, que recebia a todo o momento lampejos de olhares desconfiados. Grudada em mim uma mulher de saia longa, braço na tipoia, sapatos vermelhos e chapéu, cujas abas insistiam em me golpear o tempo todo. No aviso da próxima estação, comecei a empurrar, empurrar até sentir o vento característico da estação Brigadeiro. Estava do lado de fora, totalmente amassada e com o desarranjo da arte da natureza em minhas mãos. No monitor do metrô mal pude ler meu horóscopo, que me assombrava com as palavras “mudança de planos”

Começo a caminhada pela avenida Paulista dizendo não aos ambulantes, aos moradores de rua, aos jovens alegres da Unicef que insistem em dizer que eu tenho um sorriso lindo mesmo quando minha boca se encontra com os dentes cerrados pela ira. Passo pelo Masp. Alguém me interpela para eu assinar uma petição contra alguma coisa que não me interessa. Um grupo canta louvores a David. Tem o violinista bizarro, um guitarrista com traje dos Rolling Stones e uma banda de xaxado. Olho para o relógio. Ainda dá tempo de ver o show em frente ao Center Três, pois ali Elvis Presley não morreu. Está lá aos berros cantando Love me tender. Nem em Memphis temos essa sorte.

Passo pela porta giratória do hotel com cuidado para que os galhos não fiquem presos no frenesi do vai e vem. Avisto o Zeca em seus trajes descolados para simular sua intelectualidade. Vem em minha direção com um sorriso de quem vê Nossa Senhora voltando ao planeta Terra. Beijos e abraços, e depois com o rosto cheio de doçura e carinho me pergunta se havia gostado do presente. Interrogação no meu rosto e ele me explica que aquela maravilhosa ikebana era para encantar minha nova residência.

Sentei-me no primeiro sofá disponível enquanto calculava o tamanho das lixeiras mais próximas da tal avenida.