© Luiz Geraldo Benetton

Livre. Flutuo. Livre?

Não exerço desejos, vou onde o ar me deixa ir. Minha natureza não supõe desejos, vontades. Então sou livre em minha natureza.

Tomam-me como inutilidade fugaz. Tolinhos, se soubessem o que sei. A visão daqui de cima me propicia percepções inusitadas. Vejo um mundo cheio de vida, movimentado, contraditório, apressado, ruidoso. Ouço confissões, juramentos e imprecações.

Inútil é o olhar perdido, o não correspondido, o ir à toa para lugar nenhum pra nada, falar pra ninguém, realizar sem sentido. Fugaz é o cigarro, o café, a buzina, a risada e o gol. Inútil é descumprir a natureza, fugaz é o último momento. Pressinto-o.

Eu não. Pratico sabedoria, observo, espreito, elaboro. Já me viram de perto? Sabem aquele balé furta-cor? Sou eu, pensando, apreendendo.

Um pássaro passou rente a mim. Ufa! (toma cuidado, ô xarope, sou poderosa, posso fazer seus olhos arderem horas).

Continuo minha missão, murmurando. Pairo sobre o mundo, superior, perfeita. Como é bom voar, cada segundo uma surpresa, uma direção diferente, nova e irresponsável. Sim, não respondo pelos meus atos, não está na minha natureza. Danço conforme a brisa. E vejo e ouço e sinto: um gesto vale um tratado de sociologia, uma risada um diagnóstico de caráter, um olhar uma promessa de amor eterno, uma lágrima a certeza da incerteza.

Tudo passa muito rápido (a brevidade do tempo é uma questão relativa), mas é tudo tão evidente.

Esse mundo é muito doido, conflitante demais!

O chato é a solidão. Ninguém sabe de mim. Flutuo incógnita, quase invisível, como um espírito esférico. Uma criança me viu e estendeu ingenuamente o braço tentando me apanhar. Ninguém viu a criança me ver.

Chegou a hora. Sinto minhas membranas afinarem, meu centro de gravidade descendo ao longo de minha superfície. Meu tempo está acabando. É da minha natureza. Como foi bom passear sobre tudo e todos, sentir a plenitude de ter sido uma bolha de sabão, multicolorida, vestida de arco-íris, saber-se partícipe deste universo cheio de leis e mistérios, feio e bonito, perceber a vibração onipresente que nos envolve e modula.

Meu ar se foi, a violência silenciosa e microscópica da dissolução de meus limites ninguém percebe, ninguém lembra. A morte é solitária mesmo, como foi minha vida. Tornei-me uma gota densa a precipitar.

Senhores, foi uma honra conhecê-los e tê-los em companhia de minha breve existência. Cuidado aí embaixo.