©  Luiz Geraldo Benetton

Certas encruzilhadas deviam ser proibidas. Nem sequer deviam pertencer ao estoque de probabilidades, nem mesmo ser possível existir naturalmente. Ninguém merece tal dilema, charada desmiolada, nó cego acachapante.

Das curvas da vida, só não vivi a morte, ainda. Mas, agora, é demais, sobrepeso, carga máxima, vai quebrar a coluna, ruínas à vista. De repente, não mais que de repente, eis que me vejo na mais emaranhada sinuca de bico jamais experimentada before.

Não vejo saída, só um cruzamento, estático, gélido, cinza opaco, desértico, sem placas, sem piedade, vertigem.

Paraliso, hesito, medo, silêncio escuro. Qualquer passo deixa a chance do acerto para o outro lado. Melhor acordar que esse pesadelo já encheu o saco… Como seria bom se fosse um sonho, o melhor dos sonhos, qualquer coisa menos essa realidade sólida, pétrea, insuperável.

E se eu desistir? Volto, finjo que não é comigo e pronto. Fácil, rápido e indolor.

Que situação miserável, que não permite sucesso nessa manobra regressiva, sutil, inofensiva? Como foi mesmo que tudo surgiu? Se me lembrasse saberia como voltar, devagar, com cautela, para não acordar o monstro guardião do cruzamento. Não dá. O pior é que descobri que para onde quer que olhe, lá está a cruz, dois caminhos à minha frente, em qualquer direção. Não é lá fora, é aqui dentro, não sai de mim.

Começo a me acostumar. O ruído vira som ambiente. Passou um tanto a angústia, meio paradoxalmente. Ainda não entendi direito minha nova reação espontânea, uma tranquilidade diante da muralha, do abismo, da bifurcação. Procuro me entender e percebo que o inevitável chegou, a minha vez é agora, vou bater o pênalti. Um banho de serenidade me lava a alma, a imagem começa a ganhar cores da vida, vou em frente, uma confiança pouco familiar me abençoa e lá vou eu.

Coloco a pelota no lugar, acaricio a redonda, dou alguns passos para trás, desprezo o olhar debochado do goleiro e corro. Escolho um canto e encho o pé, ponho pra fora todo o medo de antes e nem sei o que aconteceu, vertigem de novo, só ouço gritos indecifráveis e um monte de gente em cima de mim. Vai saber.