©  Luiz Geraldo Benetton

Eu resisto. Resisto aos ventos do norte, do sul, dos lados, de dentro e de fora. Resisto aos infortúnios, aos impropérios, às catástrofes e tsunamis. Resisto a não mais poder. Esgoto-me, seco, desidrato e me conservo.

Eu desisto. Desisto das inverdades crônicas, das densas falácias, dos sofismas fascinantes. Desisto das ideologias malformadas, da soma das vaidades, dos egos inflados de vácuos brilhantes.

Eu resisto. Resisto ao pêndulo da vida, aos jogos da sorte, à ciranda dos azares. Resisto às conspirações infundadas, às traições esperadas e traições inesperadas. Resisto a não mais poder. Até a ressurreição, sempre, trôpega, trêmula, mas insistente.

Eu desisto. Desisto das infâmias concatenadas, dos fanatismos históricos, da irracionalidade sacralizada. Desisto das convicções arraigadas, dos ressentimentos incuráveis e das amarguras insolúveis.

Eu resisto. Resisto às injustiças compulsivas, aos desafetos gratuitos e às incoerências emocionais. Resisto aos ataques de fúria, às ofensas morais e às calúnias e difamações. Resisto a não mais poder, até o reiniciar da amistosidade e da convivência.

Eu desisto. Desisto das neuroses empacadas, das defesas acirradas, das miopias afetivas. Desisto da cirrose mental, da certeza do mal e da ignorância convicta.

Eu resisto. Resisto à covardia dos medrosos, às mentiras deslavadas, às falsas afirmações. Resisto às tocais sombrias, às ciladas sedutoras e às armadilhas engendradas. Resisto a não mais poder, até o esgotamento das forças, ao suspiro da dialética.

Eu desisto. Desisto da insistência do erro, da teimosia acéfala, da burrice consagrada. Desisto da glamourização da ignorância, da soberba dos idiotas e da conjunção verbal.

O dualismo vital se impõe. Conviver com a desidealização da ingenuidade primaria, essa sim resistente. Penúltima fase do herói.