© Luiz Geraldo Benetton

O que eu queria mesmo é inventar uma piada muito boa, a melhor piada do mundo, que dividiria a história do humor em a.P e d.P.

Mas não a contaria. Guardaria para mim, como minha reserva pessoal inefável, e de quando em quando me lembraria dela e deixaria escapar um riso farto, espontâneo, sem motivo aparente. As pessoas se perguntariam “de que ri esse bobo?” e eu me retiraria do ambiente, mantendo meu segredo intacto. Divertido.

Depois de uns dez anos, em um gesto de nobreza e benevolência, eu a traria à luz. Escolheria uma festa de casamento, daquelas grandes, quatrocentas pessoas, todas no salão de festas. Aguardaria a orquestra descansar, reuniria um grupo e então a contaria.
A gargalhada histérica e catártica iria ser geral, sonora e contagiante, todos ao redor se contorcendo, e se espalharia, e convidados, garçons, noivos e músicos não parariam de rir. Um coral de quatrocentos risos.

O som provocaria curiosidade nos transeuntes, que por contágio iniciariam a gargalhar copiosamente. Logo toda a rua estaria a rir, as quadras, os quarteirões, o bairro, os bairros, a cidade. Os aeroportos se encarregariam de espalhar a onda, atravessando fronteiras, contaminando territórios, países, continentes.

Com a gargalhada contínua a oxigenação do cérebro desceria a níveis críticos e passaria a lesar irreversivelmente os neurônios, que aumentaria a suscetibilidade ao riso, e todos passariam a achar graça da graça da graça, indefinidamente.

Tal acúmulo de ondas sonoras, pelo efeito borboleta, iniciaria uma mudança climática. Com a alteração do regime dos ventos, maremotos se fundiriam em tsunamis gigantescos, vendavais devastariam fazendas e cidades, e os animais das florestas, em resposta instintiva, cada qual com seu talento, emitiriam, uníssono, agudos, goela afora.

Seria o ponto angular, a ruptura do equilíbrio já instável. A atmosfera sofreria um brusco aumento de pressão, o ar começaria a escapar estratosfera acima, e a camada de ozônio se romperia de vez.

Não iria demorar muito e finalmente a humanidade saberia, sem metáfora, o que é morrer de rir.

Sei não… talvez eu não contasse… ainda.