© Luiz Geraldo Benetton

“Quem está fazendo esse silêncio todo?”

A pergunta ecoou no ambiente, os monges na biblioteca se olharam desconfiados, atônitos, ninguém conseguiu identificar o autor e nem classificar aquela expressão. Era meio, meio… não havia adjetivo adequado. Era isso, inadequado, impertinente, transgressor. Quem ousara?

Só um ria, baixinho, tentando disfarçar a satisfação do ato de ruptura de um silêncio dogmático. Não aguentou e deu um berro agudo, levantou-se agitado e começou a dançar sobre a mesa de estudos. Os livros caiam em volta, chutou tudo que via, rodopiava de braços abertos e alçou voo.

Passou por sobre a cabeça de cada um, gargalhando e babando, com um olhar esbugalhado e superior, desafiando os demais. Três desmaiaram, dois começaram a chorar e o resto entrou em pânico, tentando fugir em círculos ou paralisados de terror. Foi um circo. Saiu voando pela janela e sumiu.

Quem conseguiu viu o noviço diminuir, virar um ponto no alto do céu, se dispersar naquela nuvem bem longe e de lá não sair.

Toda vez que chove no mosteiro, os irmãos fazem uma oração especial.