©  Luiz Geraldo Benetton

“Mas essa ponte não termina nunca”? “Nunca”. Cada dia uma vez diferente, uma aventura nova. Era uma vez, e outra vez, e outra…

O menino da ponte. Esse era o título da história que meu pai me contava todas as noites durante o período áureo da minha infância. E como era comprida aquela ponte, sobre uma coleção imensa e indefinida de águas serenas.

Tinha de tudo, onça pintada, cachoeira com jacaré, floresta encantada, bandoleiros e gladiador gigante. E o menino da ponte vivia cada instante de forma combativa, inventiva, e como todo bom herói infanto-juvenil, passava por poucas e boas, reunia forças e superava obstáculos.

Minha mãe me contava outras durante o dia, mas à noite, depois do jantar, em seu quarto, sobre a cama de casal, me maravilhava com as imagens criadas por ele, vibrava e partia para devaneios complementares.

Só muito mais tarde, já municiado de recursos de abordagem mais perspicazes, é que percebi o valor estruturante daqueles contos. Uma ponte infinita sobre águas calmas, palco de aventuras e peripécias, história sem fim, jornada de uma vida, elementos imagéticos e dramáticos sedimentaram um símbolo de força, uma certeza que o caminhar é tão importante quanto o chegar, que se dá a cada passo conquistado. Posso afirmar que não absorvi cem por cento da mensagem, mas uma parcela, penso que sim.

Uma vez o menino soube que deveria ir até uma pequena ilha, três léguas distantes, combater o dragão que aprisionava os nativos. Começou a remar seu pequeno bote em direção à ilha. ”Vai ser fácil”, pensou, águas claras, planas, sem ondas…e do nada uma erupção de bolhas, um redemoinho, o barco começou a girar cada vez mais rápido e o menino quase caiu de tonto da cama não fosse a mão de seu pai lhe segurar. De repente, tentáculos pegajosos surgiram e puxaram o menino. Caiu na água, debateu-se entre os travesseiros e seu pai o submergiu entre os lençóis.

Tinha que sair dali, cumprir a missão, mas antes se livrar daquela criatura nojenta de oito tentáculos sinuosos e ágeis. Agarrou um tentáculo, depois outro, pelas pontas dos lençóis, e deu um nó; depois conseguiu amarrar mais dois e outros dois, “pronto pai”, “não, só sai daí com todos os nós”, só faltava um par, que o manteve submerso e sem fôlego, e sem pontas para amarrar. Conseguiu improvisar com a própria camisa, emergiu e subiu de volta, apressado, encharcado de suor das águas que quase o afogaram. E ainda faltava o dragão.

O menino, incansável, remou rapidamente as poucas léguas até a ilha. Mal chegou e o monstro já o encarou, abrindo a bocarra e tossindo pequenas labaredas de aviso ameaçador. Pra quê! O garoto voou insano no pescoço daquele avestruz metido. “Não, não, sou eu, é brincadeira”, “Você é o dragão malvado, vou lhe dar uma lição”. Lençóis, travesseiros e penas para todos os lados. Logo o animal conseguiu se desvencilhar do menino, mas, bem antes do Batman, o nosso pequeno herói já andava com seu cinto de utilidades secretas. Sacou do pó da invisibilidade e, enquanto apagava a luz no espelho da porta, o dragão acendia no espelho da cabeceira da cama. Ficaram nesse duelo pirotécnico até que conseguiu dar um golpe, uma chave de braço, agarrou com força e o empurrou com os pés abismo abaixo até o chão da cama.

Levantou-se, bateu no peito e gritou feito Tarzan. Pronto, foi o sinal, era hora do banho quente, pijama e naninha. Mas tinha sido uma luta gloriosa. Rogou e conseguiu. Naquela noite o menino armou sua barraca no acostamento da ponte, entre a cama e o guarda-roupa, e adormeceu. Sonhou com doces delírios triunfantes. A estrada estava posta. Agora era só percorrer.