© Luiz Geraldo Benetton

O espírito natalino é uma coisa muito engraçada. É a época em que o infantilismo contamina indiscriminadamente. Todo mundo espera presentinho e fica fascinado com o pisca-pisca das luzinhas que preenchem os espaços urbanos. Eeebaaa, é Natal!

Nunca deixamos de ser crianças totalmente. Ainda bem. E como é importante para o equilíbrio emocional de uma criança ter respeitada sua fantasia, sua forma de ver e entender o mundo.

A criança pequena tem uma necessidade muito grande de estabilidade, coerência e regularidade. O conto de fadas tem que ser contado do mesmo modo, e repetido, repetido, porque é assim que ela sente garantida a acomodação, em sua inteligente cabecinha, das referências que tanto precisa.

E Papai Noel é uma baita referência. Referência de reconhecimento e de merecimento: ganhar presentes no Natal do velhinho é ser confirmado como pessoa legal, aceita, digna e amada. Papai Noel é um veículo de autoafirmação para uma criança. Meritocracia e cidadania já são insinuadas na carga moral deste mito. Acreditar em sua existência um tanto misteriosa e cheia de magia faz parte do alimento de alma para uma pessoinha nesta fase da vida, em nossa cultura.

Depois de um tempo estabelece-se o predomínio do pensamento lógico-formal, e o sonho desvanece. Daí que me lembro de quando desconfiei pela primeira vez que esse negócio todo era fantasia demais pro meu gosto.

Já devia ter meus sete anos. Cheguei junto à cozinha onde minha mãe estava lavando louça. Meu rosto mal ultrapassava a altura da pia, olhei para o alto, para a gigantesca mãe de um metro e sessenta, e disse: “Mãe, andei pensando e acho que Papai Noel não existe”. Sem se perturbar, me olhou lá de cima e perguntou por quê. Eu disse que era impossível carregar milhões de presentes, todos os pacotes grandes, não iam caber em seu trenó voador, ia cair tudo pelo caminho. “Mas eu não te contei do saco de areia?” E eu: “Nãããooo!”. “Ele não traz um saco de presentes, mas um saco de areia, com milhões de grãozinhos. Quando ele chega às casas das crianças pega uns grãozinhos, faz PLIM e transforma nos brinquedos. Entendeu?”. E eu: “Ah, então tá, agora sim, eu tava entendendo tudo errado”. E saí convicto, feliz e aliviado. Ainda bem. Deus sabe o quanto torci por uma resposta assim.

E essa prosa toda me lembrou daquela velha história da menina que estava morrendo de medo de não ganhar presentes do Papai Noel porque desobedeceu aos pais, não conseguia parar de devorar as queratinas das pontas dos dedos, até a raiz.

(Para quem já conhece, a crônica acabou aqui, quem não conhece, pode continuar se quiser).

Tadinha, não tinha culpa, era compulsão mesmo. Seus pais até entendiam, mas apelaram para a tradicional chantagem: “se desobedecer não ganha presente”. Desconfiava, triste, que não iria ganhar nada. Decidiu encontrar com ele. Desta vez não escaparia. Não seria como nos outros anos, sempre por um triz. E aproveitaria a oportunidade para se justificar.

Esperou todos dormirem, resistiu ao sono, e, no meio da madrugada, ouviu um ligeiro ruído vindo lá de baixo, na sala. Levantou-se sem fazer barulho e começou a descer as escadas, de meia, silenciosamente.

Quando chegou à sala, na penumbra, distinguiu a figura do próprio, sentado num banquinho, ar cansado, mordiscando a película do dedo indicador. Surpresa, mal conseguiu balbuciar: “Papai Noel, o senhor também rói unha?”. E ele disse: “Rou, rou, rou”.

(Quem mandou ler até aqui?)

Meu Feliz Natal a todos.