© Luiz Geraldo Benetton

Luz, claridade, frio e fome. Agitação, sono, muito sono. Rostos fora de foco insistem em me chamar atenção. Tenho medo de quase todos, assustam minha visão, agridem meus ouvidos com sons agudos e desafinados. Engasgo sempre, regurgito metade. Saudades da minha piscina aquecida.

Antes não tinha noite e dia.

Hoje não sei mais de amanhã.

Desconforto geral, aperto, calor, embalos, confusão, sono, muito sono.


Tudo urge. Nada me detém. Corro, pulo, grito, choro, brinco com tudo, o mundo é dos gigantes. Tropeço, jogo, birra. Por que tem que ter hora pra tudo? Quero doce antes do almoço e jantar sorvete, qual o problema?

Dormir é perder tempo, vai começar outra brincadeira, esperem por mim.
O mundo é mágico, tudo é faz-de-conta, eu sei voar, quer ver?


Esbarro em tudo, sou estabanado, já quebrei coisas por aí. Meus sapatos ficam pequenos muito rapidamente; minha pele explodiu, virei macaco, desafino no andar. Mariazinha, meu eterno amor, me espera que eu vou crescer e te dar o universo.

Primeiras experiências, quase morro de tanto tossir, não esperem por mim, tenho que devolver as chaves antes que se perceba, dessa vez escapei por pouco.


A vida é séria. Vencer sempre, não escolho adversário, mas esse campeonato não acaba nunca. Cansar é pros fracos. Adiante e para o alto. (Socorro alguém aí). Aqui o rei sou eu. Vou chegar custe o que custar.

Já não tenho quase inimigos, eliminei um a um.

Enfim a paz.


O inimigo está em mim. Demorou mas entendi. A tão almejada paz não é um lençol branco e virgem, mas uma colcha de cicatrizes aquietadas pelo perdão. Eu sou capaz de tudo que me fizeram. Esse mundinho dá voltas, muitas voltas.

Depender já não me ameaça mais. Preciso compartilhar.


Não existe cultura inútil, tudo se conecta com significado e eu sou um grão de poeira com miopia. Só me resta aceitar meu tamanho. A Verdade tem mil faces, se vier a ver uma dúzia, puxa, estive aqui.

Contemplo o tempo, não conto nem desconto, deixo ser, deixo fluir, isso também é viver. Pressa é para os heróis, iminência, para os aflitos.


Nada urge. Tudo dói, o ar me foge. Escada, nem pensar. Saudade dos meus cabelos e de algumas outras poucas coisas. Já não sei o que esqueci. O que eu quero mesmo é tomar banho de mar sem cair.

No espelho da minh’alma só passa reprise. O futuro chegou, agora é só passado. Sonolência o tempo todo, nunca sei se vou acordar.

Minhas raízes hoje são flutuantes. Apeguei-me ao desapego para sobreviver. Ainda luto para minha vontade seguir uma certa sabedoria.
Sono, muito sono, vou dormir.