© Luiz Geraldo Benetton

Cada um geme a própria dor, e timbres semelhantes vão formando corais e refrões de lamúrias, insistindo na centralidade de seus sofrimentos. O que vale é a ferida, a chaga de cada um.

Parece que temos um ídolo de ouro no centro de cada alma, para o qual não conseguimos desviar o olhar, cessar de venerar e sair de perto. Racionalizar em ideologias, filosofias de vida e posturas políticas é investir em uma pseudo sublimação, auto ilusão, me engana que eu gosto, anestesia de curta duração.

O que falta não é somente atacar o problema, confrontar o âmago da questão e redirecionar a energia. Isso é linear e autofágico, e sempre deixa um ovo da serpente. O que falta é ouvir o outro no seu próprio timbre, ler sua partitura, contemplar seus símbolos, aproximar-se e compreender, agora sim, com sua coleção de ressentimentos, a dor alheia ao seu mundinho autocentrado. Descobrir-se fora do centro do mundo, utilizando a mesma energia que o aprisiona.

Ouvir, ouvir, ouvir, até perder o reflexo de responder de imediato com sua pobre cantilena de faltas e carências. Ouvir, ouvir, ouvir, até chegar além do campo de horizonte, distante o suficiente para resistir à tentação narcísica de se referir repetidamente e então descobrir pouco a pouco que o universo tem tantas outras versões, diferentes da sua visão centrípeta, e abrir-se corajosamente a um autoabandono das identificações neuróticas, que condicionam a redução em eco das mesmas convicções de sempre.

O novo está no outro, que permanece temeroso enquanto lido precariamente, defensivamente, covardemente. Sem essa guinada de referência, que se dá pela prática madura do ouvir, o processo nem começa e o coro das lamentações continua seu eterno recital.