©  Luiz Geraldo Benetton

Há algum tempo resolvi fazer da escrita um dos meus hobbies preferidos, sem pretensão alguma, só para me expressar. Ao mostrar para algumas pessoas , veio o comentário que eu escrevo contos e não crônicas. Como assim, pensei eu, escrevo crônicas. Mas o argumento contrário tentou me convencer: crônicas descrevem o cotidiano, meus textos são muito variados, não se prendem ao dia-a-dia, etc, dizem, estão mais pra contos que crônicas. Afinal, “crônica” vem de “Cronos”, deus grego do tempo, e então o texto deve se prender a discorrer sobre sua passagem e os acontecimentos narrados com fluidez e elegância.

Fiquei a pensar e não concordei. O deus grego para tempo tem dois aspectos, “Cronos” e “Kairós”. O primeiro se limita ao tempo do relógio, mas o segundo à vivência total, à experiência subjetiva, ao sentir da existência. E muito sabidamente se complementam.

Mas assim mesmo topei o desafio de escrever uma crônica pura, do lado “cronos” propriamente dito. Lá vai.

São exatamente 14h12min. Sei por que vejo o relógio que minha filha me deu ao trabalhar em uma empresa coreana, da qual se demitiu para viajar um tempo de experiência na Itália. Minha escrivaninha está abarrotada de papéis, como sempre. Ainda assim tento me organizar para cumprir minhas tarefas. Lá fora um sol de outono, aqui dentro uma tarde comprometida com trabalhos de um consultor.

Deu fome, esqueci deste detalhe animal, visito a geladeira, que me sorri envergonhada, desculpe, estou vazia. Saio para comer, porque almoçar seria muito luxo agora com tanto dever de casa. Um sanduba natural já resolve, o importante é voltar logo.

Pego o elevador de serviço, está mais perto. Entro e aperto para descer; ele sobe, e sobe, até a cobertura. Entram dois labradores e seu dono simpático e conversador. Um dos cães, bem velho, tosse sem parar, aquele hálito canino que só o dono não percebe. Disfarço minha ânsia, tento sorrir sem conseguir prestar atenção ao que ele dispara a falar sem parar.

O elevador para no oitavo. Vai abrir a porta, penso, e ventilar por um segundo, o que já é uma bênção. Entra uma dona com seu cachorrinho no colo; os dois maiores, que até então deviam estar com o saco na lua de tanto ouvir o dono, descarregam a latir pela presença do pequenino. Este não se intimida e responde com seus agudos enfurecidos e olhar raivoso para baixo. O cão mais velho engasga de tanto latir e expele uma gosma que por milímetros não pega minha sandália. Térreo, finalmente. Saio afogado.

São 14:15h, três minutos de eternidade, amostra grátis do purgatório. Já pensou se o elevador quebrasse no meio do nada?

Atravesso a rua, célere, evitando contato, respirando rápido pra oxigenar decentemente meus pulmões. Fazia tempo que não procurava a lancheteria. Tempo mesmo, mudou dali há seis meses, disse-me a manicure do lugar. Foi-se o charme do tijolinho à vista, agora é um baita vidro com vista para as madames lá dentro, que vieram procurar o que andaram perdendo. Sou a favor da beleza artificial, tem mais é que buscar mesmo.

Olho em volta, olfato ligado, estômago acidificando, quero comer, começou aquele minidesespero, aquela urgência mastigatória. Agora que a fome apertou, um belo filé com fritas, mas minha vizinhança não coopera, é residencial demais.

Sinto exatamente o aroma que estou desejando, vem de um sobrado à minha frente. Penso em bater à porta e pedir um pouco, mas rio do meu reflexo. Oi, gente, tudo bem? Estava passando aqui em frente e senti esse cheirinho de comida caseira, irresistível. Prazer, meu nome é Jarbas (aqui que vou dizer meu nome verdadeiro), somos vizinhos e pensei em me convidar para almoçar, que tal?

Saio dali antes que um surto me leve a tal desfaçatez. Meu estomago dói, ronca, contrai. Lembrei que na onda de trabalho tinha tomado só um gole de café há oito horas. Lembrar isso piorou minha fome.

Vencido, passo no supermercado a três quadras e compro comida pronta, fria, sem gosto. Preciso me cuidar mais, lembrar de abastecer a despensa e a envergonhada geladeira. Isso fica pro fim de semana, tenho prazo para entregar relatórios.

Na volta das muito contrariadas compras, topo com uma cena inesperada. Na outra calçada, uma rodinha de gente formando uma clareira e um buxixo embaralhado. Nem penso em resistir, me aproximo e vejo, entre as pernas curiosas, um animal desfalecido e seu dono desesperado. Era o velho cão babão do elevador. Morrera? Nem seu dono sabia dizer. Imóvel, se respirava ninguém percebia. Todos atônitos e pasmos, deu dois tremeliques e tombou, disse o falador. Não demorou nada e o cão se contorce e começa a tentar levantar o pescoço, bambo, zonzo, olhar de sono, mas se ergue e arfa profundamente. Desta vez até o dono sentiu o olor patológico. A rodinha se afasta por dois motivos: o cão estava vivo, doente, mas vivo, e pelo aroma insuportável. O dono o carrega rapidamente até o prédio. Sigo atrás, preocupado e enternecido, mas vou pelo elevador social dessa vez.

Em casa coloco a bagaça do supermercado pra descongelar no micro-ondas e volto à minha escrivaninha. O relógio aponta 15h07min. Foi tudo muito rápido, e comecei a escrever esta crônica. Ao chegar a este ponto fiquei feliz. Consegui escrever uma crôn… péra um pouco, não é crônica não, inventei quase tudo, não tem cachorro no meu prédio e moro num bairro com o maior índice de restaurantes por metro quadrado em São Paulo, e nem saí de casa. Minha crônica foi isométrica.

Se eu não revelasse que foi quase tudo invenção – a única parte verdadeira é o relógio coreano e a escrivaninha bagunçada –, seria considerada uma crônica? Afinal descrevi minúcias cotidianas bem verossímeis, em um intervalo de quase sessenta minutos. Se for tudo ficção, então é conto? Bem, por mim conclui que na minha liberdade catártica criativa não olho para limites nem para classificações acadêmicas, não me balizo por aí. Não escrevi nem crônica, nem conto, mas cronto, e pronto!