©  Luiz Geraldo Benetton

Meu ônibus não chega. Já vi passar uns cinco, nenhum para o meu destino. Cada um que surge longe, na curva, desperta a esperança. Aí a vista se ajusta, eu leio, não, não é o meu.

Começou a garoar. Friozinho. Lá vem mais um, devagar, não, também não é. Fiquei pensando nos rostos que vi pelas molduras.

Um homem bem idoso, ar cansado, quase cochilando. Quantos ainda dependem dele? Passou o dia trabalhando, repetidamente, explorado pelo serviço, pela demanda, pela loucura urbana? Ou estaria voltando de um médico, enfermo, aposentado? Vive só, ou com diversos familiares? Tem netos? Gostam dele? Sua máscara de exausto não permite nenhuma certeza, só fantasias.

O garoto com o nariz e os lábios grudados no vidro. Há uma tese de que isso se deve ao cromossomo Y. Nunca vi meninas nessa pose. Que gosto tem mesmo? Será “tertuliano”, frívolo e peralta? Ou reprimido, medroso e covarde? Tem irmãos ou irmãs? Vive com os pais ou com os avós? Passou de ano ou é um repetente contumaz? Até onde chegará? Dele nada sei, só consegui apreender sua expressão de êxtase em lamber a janela.

O padre em pé, dando lugar para a senhora obesa que entrou no ponto. O que pensar? Pra que pensar? É possível não pensar? Vida sacrificada, renúncias, opções corajosas, ou recalques sombrios, crises de fé e incertezas secretas? E a senhora obesa, há quanto tempo está assim ? Teria sido bailarina na infância ou atleta, ou desde pequenina já era robusta? Que vida leva? É feliz ou só alegre? Que faz para viver? Tem talentos artísticos, voz de soprano, uma atriz não revelada, poetisa de gaveta? Seu semblante era calmo, sereno e sorria em agradecimento ao padre que lhe fizera o ato gentil. Só sei que era educada.

O casal de jovens se beijando no banco de trás. Quando se conheceram, onde? Vão se casar ou é só um relacionamento passageiro? Dividem fantasias e ardores, ou também medos e dúvidas? São íntimos a ponto de não temer se mostrar frágeis ou esnobam falsa segurança? Pelo calor do contato despudorado, nada concluo além do óbvio.

Uma garota com muitas lágrimas nos olhos, olhar triste para o infinito, testa franzida, me comoveu. O que houve? Perda fundamental definitiva? Ruptura amorosa, sonhos em ruínas, sensação de vazio e desamparo? Instalação da mais pesada e insolúvel desesperança? – O que te causou isso, criatura? Teu soluço parou o tempo, mas não o ônibus, que se foi, e a minha dúvida também.
E assim foi uma sequência de imagens, rostos, expressões, posturas, despertando em mim um exercício de imaginação, reciprocidade, empatia e projeção, em qualquer ordem. Nada melhor a fazer num fim de tarde frio e chuvoso. E meu ônibus não chega.

Intuí que há um pouco de cada um em cada outro. Solidões, saudades, desejos, frustrações, encontros e separações, quanto mais eu sentir ou pensar mais observo variações do ser humano e percebo o paradoxo da intensa semelhança e da distância abissal entre nós. Biografias absolutamente originais num aquário. O coletivo e o individual, aquele, autodescritivo e previsível, e este, um eterno mistério, inconclusivo porque vivo. E a impossibilidade matemática de absorver e conhecer o outro, tão perto e tão longe. Um brinde à solidão ontológica, nosso ponto final.

Meu ônibus finalmente chegou. Meio vazio. Sento na janela.

Ops! O que vão pensar de mim?