© Luiz Geraldo Benetton

Gosto muito da estátua do Borba Gato. Eu e meu primo Zé Walter. Que eu me lembre, mais ninguém. Explico. Quando me mudei do Rio pra São Paulo fui morar pros lados de Santo Amaro, recém-rebaixada a bairro; era distrito separado até então. Estrada de Santo Amaro, longa, comprida, de terra, poeira.

Fui morar bem perto da casa desse primo, pouco mais velho, e quase vizinho do Júlio Guerra, na João Dias, escultor da famosa e icônica obra que se posta à entrada do bairro.

Éramos pequenos, pré-adolescentes, e sempre íamos para a frente da casa do Júlio, com muros altos. Fazíamos escadinha com as mãos, um sustentava e o outro espiava. Acompanhei a feitura da escultura, sem entender a engenharia daquele amontoado de ferro e cimento. Tá explicado.

No final lá estava ela, dez metros de altura, saudando os pequenos mortais. Sob a vigilância e proteção daquele colosso de Rhodes tupiniquim brincávamos a valer.

Assim que cheguei do Rio me enturmei com os amigos do Zé Walter, o Nelsinho e o Tote, e virei atração e curiosidade. Pediam-me para pronunciar “mar”, e eu o fazia com naturalidade, e não entendia a princípio porque riam cada vez que eu falava uma palavra que terminasse em “R”. Eles sim tinham um sotaque estranho, pobre, sem graça. Encheu meu saco, mas nunca me ocorreu mandá-los à merrrda. Depois comecei a não me importar e a rir também.

Incursionávamos mata adentro no Clube Hípico ali ao lado; entrávamos pelos buracos da cerca e o dia passava em guerrilhas com estilingue e mamona de munição. Um dia, achamos um cocho velho e abandonado; não tivemos dúvida, arrastamos aquela peça pesada de madeira até o porão da casa do meu primo, fincamos um cabo de vassoura na vertical, jogamos um pano por cima, e lá estávamos a velejar, pirateando o mundo, saqueando tesouros imaginários, até que minha tia desceu ao porão e acabou a brincadeira, fez-nos devolver aquela coisa velha, mesmo sob nossas súplicas e justificativas.

Inspirados pelo seriado “Jet Jackson, o Comandante Meteoro”, precursor do celular, que imitávamos com uma caixa de fósforos com duas pilhas dentro e um araminho fino como antena, fomos ao campo de polo desse clube com uma missão científica. Levamos um foguete de São João ao campo de pólo e colamos nesse foguete, com durex, um pequeno cubo feito com cartolina vermelha; dentro colocamos uma linda formiga saúva, fechamos, acendemos o pavio, corremos cinco metros de distância e lá foi nosso míssil, explodir sete andares acima. Ficamos de olho na caixinha, que caia suavemente, corremos até ela, abrimos com cuidado, prontos para saudar nossa astronauta, e qual não foi nossa decepção: a formiga estava esturricada. Foi aí que o Nelsinho proferiu a conclusão do experimento com uma frase que me marcou e nunca mais esqueci: “ela não resistiu à pressão”. Caramba, não contávamos com essa variável, devia ter sido uma pressão tremenda.

Na casa em que morei, do meu quarto avistava a rua em frente, uma ladeira convidativa, e da janela do quarto dos meus pais, o campinho. Estava bem cercado. Meu sensor interno de movimento sacava se algum amigo surgia em algum canto, e lá ia eu, desembestado. Acabei tendo amiguinhos tanto na turma da minha rua quanto na turma da rua do meu primo, e, é lógico, entre as duas quadras havia uma terceira turma, inimiga, com brigas na calçada, cada garoto com direito a vinte socos no ar e dois tropeções.

A rua era rua de tudo. Automóvel só a cada dez minutos e devagar, dava pra brincar do que se imaginasse: mãe da rua, lenço atrás, pega-pega, esconde-esconde, alto-paralisado, não lembro mais. E tinha o melhor de tudo: a ladeira. Apostávamos corrida de carrinho de rolimã. A pista era perfeita, rua larga, inclinação ideal.

Disso em particular guardei duas lembranças, uma bem gostosa e outra bem triste. A primeira é que nos campeonatos nos dividíamos em duplas fixas, e meu parceiro era dois anos mais velho e dois anos mais encorpado, mais forte. Eu era o piloto e ele o empurrador até uma linha limite, depois era a inércia e a habilidade de cada um. Ganhava quase todas, graças ao formidável impulso que recebia e deixava os outros para trás.

A segunda lembrança é que esse menino cresceu, foi servir o exército ali no quartel do Ibirapuera e uma bela noite foi estilhaçado por uma bomba jogada dentro de um carro por terroristas urbanos. Anos de chumbo. Lembro dele e tenho saudades. Dele e dos tempos da infância.