© Luiz Geraldo Benetton 

Tenho estado apreensivo ultimamente. Bastante. Às vezes sou acossado pelos meus assombros, mas desta vez é diferente. Senti um peso de outra ordem, algo novo, que não se definiu.

Conheço parte de mim de cor, outras não, é claro. Ou melhor, não claro, obscuro, sombrio, penumbra. Mas ainda assim já ganhei certa intimidade comigo mesmo, mas dessa vez algo mais grave parecia estar se anunciando.

Pela minha tipologia introvertida tenho lá alguma facilidade de chafurdar nas minhas lamas preferidas, me pego nos meus atos falhos, percebo minha respiração, mas dessa vez parecia que a coisa era diferente.

Tenho andado muito apreensivo ultimamente. Prenúncios, pressentimentos, cismas, nada definido. Não costumo demorar tanto para conseguir pistas quando isso acontece, mas dessa vez é diferente.

Recordei sonhos (eu os anoto em pequenos cadernos secretos e já instrui minha filha para cremá-los comigo) buscando alguma dica, um insight. Nada. Testei algumas hipóteses: todos temos dívidas afetivas, frustrações mal sublimadas, relações interrompidas, sonhos desfeitos, choros contidos, remorsos esquecidos, culpas deslocadas, almas desafinadas.

Nenhuma serviu.

Parti para uma tática mais agressiva, um exercício proativo. Um ritual, isso, um ritual. Dessa vez a coisa não me escapa. Sábado à tarde, silêncio em casa, silêncio no bairro, anoitece no jardim. Acendi duas tochas e dois incensos, me coloquei numa posição yoga-like, fechei os olhos e mergulhei na nuvem densa que já se formava na minha mente.

Não é fácil, parece brincadeira, mas dá arrepio, você nunca sabe o que vem, pode ser mais forte que seu ego naquele momento. Não tentem isso em casa, é para iniciados. Apreensão (tenho andado muito apreensivo ultimamente).

De início, nada. Depois… nada ainda. O envolvimento é rodopiante, mas o sinal para desistir é muito claro e não o detectei, então permaneci, ali, sei lá se ali ou a mil por segundo, redemoinho, vertigem leve, peso, muito pesado, pressão contra o chão.

Percebi que ia fracassar, apelei. Despertei minhas pernas e preparei três doses de whisky com gelo, mais vinte ml de água de côco para beber de uma vez. Voltei rapidamente e resintonizei na estação do self; demorou uns minutos e eu já estava dez quilos mais leve.
Agora vai. Som levíssimo, indefinível, distante. Um leve escurecer da nuvem branca. Medo. Boca cerrada. Apreensão.

Aos poucos vai se delineando uma imagem, letras grandes, de pedra, e um coro de tragédia grega ecoando, marcante. Uma palavra se revela, agora não tenho mais dúvida. Vejo um gigantesco NÃO na minha frente. Pronto, abro um sorriso franco, aliviado. Finalmente a resposta. Perdi mais dez quilos no alívio, ufa, era só isso.

O problema é que não me lembro mais da pergunta. NÃO o quê, porra?