© Luiz Geraldo Benetton

A combinação tácita é: grunhimos no elevador, entreolhamo-nos na garage e nos ignoramos na calçada. Tudo muito naturalmente, elegantemente, sem dúvidas ou conflitos. A nova etiqueta manda ignorar o próximo, não perturbar seus murmúrios para não interromper os próprios discretos solilóquios confirmadores da sua solidão.

Arriscar uma aproximação corta o estado semiletárgico que essa nova droga abstrata produz; nada deve interromper a autocomiseração, os pensamentos e o exercício perene de ensimesmar-se.

Nada muda depois, já no ambiente de trabalho. A falsidade relativa do ar sempre gira em torno dos 80%, chove hipocrisia, sopra um vapor sulfuroso de mentiras e a sensação térmica é de estar no meio do inferno. Chefes gritam porque ninguém ouve, ninguém sabe, ninguém sai de si. Olham-se e riem, palhaços mútuos, contracenando com ninguém.

De volta, em casa, tudo muda, todos mudos, cultuando a informática e a escoliose. Monólogos duais se sucedem, algum som no ar. O cachorro é o único que ama.

Cansou um pouco. O isolamento dói, mas é uma dor menor que a entrega cega e incalculada. O medo do íntimo, o preço da decepção, a distração submersiva, e lá vamos nós ao desencontro de nós mesmos.

Tudo evapora, escapa, some. Resíduos de memória afetiva desmancham em silêncio. A grande nuvem cinza do Nada avança soberana, em seu ritmo solene, impiedosa. E ninguém percebe. Vai chover feio. Em breve seremos uma multidão de afogados. Isso tudo me pesa muito.

Desmanchamos a olhos não vistos, ninguém vê nada, cada um na sua, feito lambaris asfixiados chapiscando factoides na lâmina rasa do cotidiano, o selfie definitivo. Pertenço ao grupo dos Anônimos Anônimos. O bom é que não é preciso frequentar, ninguém vai mesmo. Por mim, pareço que já morri e ninguém foi no meu enterro. O que circula por aí é um espectro com densidade mínima, numa cidade de fantasmas. Ninguém sabe que já morreu.

A consagração do isolamento vai encontrar seu Ômega. A solidão esgarça o ser. Essa individualidade deforma a alma, aleija o espírito. A cultura do Vácuo Anímico vai conseguir fluir em espiral até seu último ponto de existência, e então, espero, explodir o seu negativo. É o senoide da História, agora sob nova direção. O problema é: quando? Qual o limite de suportabilidade dessa defesa maluca?

Tenho que parar de escrever, vai começar minha novela.

Esta crônica serviu de ponto de partida para outra, escrita a quatro mãos por Luiz Geraldo Benetton e Veruska Zanetti. Leia aqui.