© Denise Faria

Era uma vez uma garota que não conhecia os varais. Morando em apartamento desde sempre, via suas roupas só penduradas, estáticas e amontoadas na área de serviço, tão logo deixavam a máquina. Ao sair fechava bem a janela, e assim evitava os efeitos da poluição e da chuva sobre os tecidos lavados.

Um dia foi morar numa casa bem pequena, igual a muitas outras da rua, mas pela primeira vez teria um quintal. E logo se imaginou sentada ao sol ou olhando o céu em noites escuras, quando ainda é possível ver estrelas na cidade.

Então, no dia da mudança, notou que na parede ao fundo da área externa haviam pequenos ganchos enfileirados. A princípio nem atinou para que serviam, mas logo viu que ali deveria amarrar fios resistentes, que a partir daquele dia acomodariam suas roupas molhadas.

Achou trabalhoso fixar cada calcinha, toalha e lençol com pregadores, que teve que ir comprar às pressas no mercadinho. Depois viu que para caber tudo precisava deixá-las todas bem juntas, às vezes usando o mesmo prendedor para unir as pontas, como amigas que dividem uma cadeira.

No dia em que bateu o primeiro vento levando até a cozinha o cheiro bom da roupa secada ao sol, ela compreendeu para que serviam os varais. Foi para o quintal sentir mais de perto o calor armazenado nos tecidos, e pensou que aquela era uma das coisas mais reconfortantes que já havia experimentado.

Nunca mais quis morar em apartamento, nem deixar a roupa secar à sombra. E passou a encarar sua vida como um varal, que acolhe o que vem e faz o melhor que pode para manter tudo luminoso e limpo, mesmo que às vezes uma chuva inesperada venha exigir que se comece o trabalho de novo.