©  Denise Faria

“Não há força mais bonita que a das resistências solitárias. Toda cidade é meio que o conjunto dessas forças.” (Texto extraído da crônica Visita Envergonhada (2), de Luís Henrique Pellanda, que inspirou esta crônica)

Vamos a Ribeirão Preto visitar uma amiga. Há muitos anos não revia a cidade. Da estrada pude logo perceber o quanto cresceu, como se espalhou pelos dois lados da pista até a perdermos de vista. A prosperidade é marca registrada da região. Logo estamos percorrendo ruas arborizadas e muitas praças, bonitas como eu me lembrava que eram.

Domingo de manhã. Enquanto nossa amiga descansa no apartamento, aproveitamos para dar uma volta pelas ruas antigas e estreitas do centro. Embora muitos bairros novos e casas luxuosas tenham aparecido nos últimos anos, o centro é meu local preferido, pois guarda ainda lindas construções centenárias, algumas conservadas, outras nem tanto. Coisa de cidade que cresce à mercê da especulação imobiliária.

Entre as praças Carlos Gomes e XV de Novembro um grupo de verde e amarelo dança ao som do trio elétrico enquanto um locutor grita palavras de ordem contra o governo. Muitos que lá estão para protestar aproveitam para dar algum uso às camisas da Seleção que sobraram da Copa. Outros trazem um “kit manifestação”, camiseta e bandeira, comprado pela Internet. Passo por eles pensando que o Brasil merecia mais. Aquele grupo homogêneo e branco, reunido “contra tudo que está aí”, tem muito em comum com nossa classe política: não estão preocupados com o povo, e sim interessados em garantir seus direitos, sejam eles justos ou não.

Caminho até o final da rua e me deparo com um prédio bonito na esquina da praça XV. É o Central Hotel – assim mesmo, invertido e com sotaque –, que ostenta janelas altas, de madeira, dando para a copa das árvores. A porta principal está fechada, mas imagino hóspedes de outras décadas, indo e vindo na calçada que também acomoda o Theatro São Pedro, restaurado e imponente, e mais à frente, logo após o poste com luminárias antigas, a Choperia Pinguim. Fico nostálgica e penso: como é possível sentir saudade de um tempo que não é o meu?

Sentada em frente ao teatro, observando o movimento ao redor, vejo surgir pela rua à direita uma família negra. Dois meninos, dez anos ou um pouco mais, correm adiante dos pais em direção ao grupo barulhento que veem à distância. Ouço o mais novinho dizer: – Vamos lá ver, acho que é circo! O outro, mais vivido, se aproxima pegando o irmão pela mão: – Vem, não é circo, é só o pessoal da igreja.

Acho a cena engraçada (o garoto menor está certo!) e aguardo seu desfecho. Os pais se entreolham com seriedade e ouço falar a mãe: – Vamos logo que sua avó está esperando para o almoço. Todos apressam o passo e seguem pela travessa à esquerda, totalmente à margem, física e ideologicamente, daquele evento na praça, que hoje é só da gente diferenciada.