©  Denise Faria

Hoje conheci um cronista, cara a cara, sem a mediação do texto diagramado ou impresso. Simpático, bom contador da História, de histórias. Tentou explicar a crônica a um pequeno grupo reunido ao seu redor, deu vários exemplos, muitas definições, mas não fechou a questão. Fiquei com a impressão de que só sabe de fato o que é crônica quem convive intima e diariamente com ela.

Quando a conversa terminou e o grupo em torno do cronista se dispersou, eu o vi se afastando, pela rua escura, rumo ao seu hotel, bem perto dali. Pareceu solitário, numa cidade que não é a sua, vivendo insistentemente de seu ofício. Fiquei pensando se vivia na estrada para escrever mais, ou se escrevia mais porque vivia na estrada.

Será difícil sua vida? Sei que volta para casa de tempos em tempos, mas não sei se ela o acolhe como acolheria um morador constante, oferecendo conforto e travesseiro amaciado. Estará organizada para recebê-lo, ou ele propositalmente a deixa bagunçada, para desejar estar na estrada novamente e em breve?

E o que come o cronista na estrada? Experimenta pratos exóticos e se arrisca à mesa, ou prefere o feijão com arroz para cultivar a boa digestão e estar sempre disposto para uma nova história?

A vida desse cronista se parece um pouco com a minha, somos de gerações diferentes mas reconheço seu universo, no entanto ele venceu uma etapa que ainda me desafio a enfrentar. Ele está disposto a se deixar revelar quando escreve sobre o cotidiano que experiencia, e faz com seus leitores uma quase terapia. São todos ouvintes sentados na poltrona em frente. Será que ele pondera ao escrever – opa, assim me exponho –, ou precisa dessa exposição para criar?

O fato é que conhecê-lo me fez pensar sobre as pequenas e grandes histórias da vida de todo dia, que um cronista pode escolher viver ou apenas presenciar. E que o ofício de juntar palavras de maneira a tocar alguém envolve talento mas também entrega e um trabalho árduo de lapidação. Que a estrada pode ser real ou metafórica, mas precisa necessariamente ser trilhada.