©  Denise Faria

Todas as histórias de apaixonamento me comovem, mas prefiro as que têm final feliz. E embora conhecedora desse sentimento, nunca o tinha experimentado assim, profundo, por uma cidade.

Há uns dez anos, um pouco antes do Natal, fomos conhecer Brotas, no interior do Estado, chegando após uma viagem curta que colocou, entre nós e São Paulo, uma distância suficiente para que pudéssemos nos sentir em férias.

Tempo quente, pousada simples mas aconchegante, o filho ainda criança animado com o passeio. Rodamos por três dias, olhando ruas com casas coloniais bem conservadas, desafiando estradas de terra que levavam a fazendas, cachoeiras e esportes radicais que não conhecíamos, admirando os saltos no rio Jacaré Pepira. Fomos recebidos por gente simples e educada, que sabia acolher e encantar. Imaginamos nossa família vivendo ali, cultivando melhores valores, quem sabe donos de uma lojinha charmosa ou um café.

No dia de ir embora senti um aperto no peito, como se estivesse deixando para trás um ente muito querido. Estranho lembrar que, mesmo sem dizer nada naquele momento, meu marido jura ter sentido a mesma coisa.

Passamos então a visitar a cidade de tempos em tempos, alugamos algumas vezes uma casa por temporada — que quase já sentíamos como nossa —, e finalmente, depois de quatro anos, compramos ali uma coisa nossa de verdade.

Na praça, ao lado da igrejinha de Santa Cruz, uma construção centenária que precisava de cuidados, e por isso difícil de vender, nos conquistou. — Parece o quintal da minha avó — ouvi meu marido dizer à corretora, sua voz revelando uma emoção inesperada. Novo episódio de amor instantâneo providenciado pela cidade. E em alguns dias éramos os donos de duas laranjeiras, uma pitangueira e uma casa precisando de quase tudo.

Hoje, sentados na varanda nova e reformada, gostamos de “olhar a propriedade”, como se fôssemos senhores de muitas terras. O que não deixa de ser verdade, porque o terreno comprido e verde, que termina num fio de água, é bem diferente do pedaço de pavimento no nono andar que, depois de um longo financiamento, o pudemos finalmente chamar de nosso.

Vivemos agora entre São Paulo e Brotas, onde vamos para sentir o tempo passar devagar, olhar os passarinhos no comedouro, conversar com calma com os novos amigos, acompanhar, com uma pontinha de ciúmes, os turistas que a visitam em busca de emoções fortes e contato com a natureza.

Não sei se deixaremos de vez as “facilidades” da metrópole. Mas, seja como for, viver esse amor singelo tem nos aproximado do mais puro sentimento de felicidade.