©  Denise Faria

O casamento acabara ali. Ela havia perguntado a ele: – Em que lugar eu estou na sua vida? Ele foi sincero: – Em segundo. Em primeiro está a luta política.

Era a confirmação do que ambos já sabiam. Haviam se casado muito jovens, os ideais permaneciam, mas eles estavam mudados… Não sentiam mais o mesmo amor. Sem saber o que dizer, eles apenas ficaram sentados na cama, juntos, doídos. As questões práticas, que ela sempre gostava de considerar, seriam conversadas mais adiante: quem sairia, o que fazer com as coisas que tinham comprado juntos – móveis, livros, discos. Não era tanta coisa. Afinal, em três anos suados, com pouca grana, não haviam juntado muito.

– Você acha que eu preciso ir dormir em outro lugar hoje? – falou com um jeito de menino que era todo seu.

Mas isso não seria preciso. Eles não se odiavam, podiam resolver tudo com calma. Talvez assim a dor fosse menor.

Ele quis voltar ao assunto: – Eu falei da política, mas você sabe que não é simples assim. Agora eu preciso me dedicar a isso, existe essa chance de fazermos um partido de esquerda, que lute pelo que eu acredito, vamos fazer dar certo. Não quer dizer que eu goste menos de você…

– Eu sei – interrompeu ela, sem querer retomar a conversa. E sabia mesmo. Achava importante o trabalho dele, a dedicação, o ideal. Mas não sentia mais paixão, essa era a verdade. E não conseguiria viver sem isso, esperando que tudo voltasse ao que era quando a política do país permitisse.

Eles haviam passado por algumas situações meio assustadoras nos últimos meses: o telefone que fazia um barulho estranho toda vez que atendiam, o zelador que remexia a correspondência e parecia ter sempre uma pergunta a fazer sobre eles na passagem pelo hall. E não era paranoia. Amigos estavam vivendo o mesmo problema em pleno ano de 1979… Era o preço que ela não estava mais a fim de pagar.

Naquela noite dormiram abraçados e tristes. Como dois irmãos que perderam um ente querido.

O tempo passou depressa desde a conversa sobre a separação. Ela havia decidido sair. Sentia que era mais sua culpa do que dele. Não queria mais ficar no apartamento. Precisava de mudanças que lhe dessem uma nova perspectiva. Sentia que sua história estava invertida: o casamento viera primeiro, e agora ia morar numa república. Mas era nova ainda, fazia sentido recomeçar dessa maneira.

No dia da mudança ele não estava lá. Não queria estar. Ela subiu sozinha, esperando o rapaz do carreto ir estacionar. Já havia encaixotado tudo que era seu, então seria rápido. Em pouco mais de meia hora já tinham colocado tudo na Kombi. Não quis a cama, nem o som, nem as coisas de cozinha. Ficou com pena de levar os discos, por isso escolheu apenas os que sabia que ele não ia mais ouvir.

Sua calma a surpreendia. Sabia que agora podia tomar as rédeas de sua vida, e agradecia a ele o fato de conseguir sair definitivamente da casa dos pais. Pegou o vasinho azul que haviam comprado em Ouro Preto, na viagem depois do casamento que eles achavam esquisito chamar “lua-de-mel”. Queria levar aquela boa lembrança e seguir em frente, procurar sua felicidade.

Carregava a bolsa e uma sacola, onde tinha colocado algumas coisas de última hora. Ao virar a chave para fechar a porta e colocar um ponto final naquela etapa de sua vida, o vasinho escorregou de sua mão, e se quebrou a seus pés, no corredor, partido em muitos pedaços.

Não teve forças para limpar a sujeira. Caiu num choro guardado há dias, e foi assim que desceu os degraus até a portaria, dessa vez sem se importar com o que iria pensar o zelador.