©  Denise Faria

Durante um exercício de desbloqueio da escrita fui desafiada a escrever um conto de fadas, mas teria que ser o “meu” conto de fadas. Tarefa difícil se eu não fosse uma animada consumidora de histórias que terminam bem, mesmo quando o começo e o meio me fazem chorar.

Então era uma vez uma menina muito amada de nariz grande. O nariz era uma herança do pai, mas nele ficava bem, seus olhos azuis desviavam toda a atenção para a beleza do conjunto. Mas eu não tinha os olhos azuis, só um nariz que crescia tanto quanto todo o resto. Durante um bom tempo torci para que ele permanecesse o mesmo, esperando que o meu corpo adolescente fosse equilibrar as coisas, mas tudo em vão. Lembro de passar muito tempo me torturando em frente ao espelho do banheiro. Duas portinhas também espelhadas o ladeavam, e ao abri-las podia ver com desagrado todos os ângulos do meu nariz da mesma forma que os outros o viam; abrindo mais um pouco e ajeitando uma bem em frente à outra, surgiam, para qualquer lado que eu olhasse, infinitas reproduções do meu perfil. Praticamente um pesadelo.

Passei um tempo sem sair de casa para outra coisa que não fosse a escola, a ponto de preocupar meus pais. Nas férias o destino era a casa da minha avó, um espaço amoroso para abrigar minha insegurança. Aquele era também um espaço de livros, mas não quaisquer livros. Ela guardava na parte alta de um armário antigo uma coleção cuidadosamente encapada, de folhas grossas e amareladas, da “Biblioteca para Moças”, livros escritos por alguém que assinava apenas M. Delly. As muitas histórias açucaradas de mocinhas que venciam a adversidade e encontravam o amor era tudo que eu precisava. E assim enfiei o nariz naqueles livros por alguns verões, uma vez que na vida real minha história não parecia rumar em direção a nenhum cavalheiro galante.

Mas os anos passaram e fui fazendo as pazes com o espelho. Se não era a beleza tradicional a me destacar, seriam outras qualidades. E foi pensando assim que cheguei ao curso de Comunicação, onde encontrei um lugar promissor para alcançar meus objetivos e onde o tamanho do nariz realmente não importava. A insegurança pode finalmente dar lugar ao amor próprio, capaz de também oferecer espaço ao amor de outro. E encontrei nesse caminho meu primeiro príncipe encantador.

Não vivi, obviamente, feliz para sempre, pois com o amadurecimento vem também a descoberta de que quase nada é para sempre, e que a felicidade é uma soma de bons momentos. Mas, com um pouco de sorte, e cercada das pessoas certas, foi possível finalmente me sentir forte e confiante, grata pela vida que tenho, a ponto de fazer a vocês esta pequena confissão.