© Denise Faria

As crianças já esperavam a postos a distribuição dos presentes. O Papai Noel tinha passado e mais uma vez ninguém estava lá no exato momento da chegada. Todos nós, os quatro primos, nunca havíamos conseguido chegar a tempo na casa dos nossos avós para encontrá-lo, conseguíamos no máximo ouvir o som de seu sinete se distanciando na noite quente do verão santista.

Pela primeira vez eu estaria encarregada de me posicionar no centro da sala cheia de gente e entregar os pacotes para seus respectivos donos, pois agora já podia ler. Além do fato de ser a neta mais velha, o que me colocava, pelo menos na minha cabeça, numa posição vantajosa em relação às outras crianças, eu teria o direito ou, mais ainda, a honra de ler os cartõezinhos: de… para…

Com embrulhos de todos os formatos e cores sendo entregues, o lugar ia virando um amontoado de papéis coloridos, e a alegria, tomando conta de todos. Não havia mesmo como resistir a um momento como esse, capaz de apagar qualquer desavença ou tristeza.

Entre os presentes endereçados a mim, que nessa noite tiveram que ser abertos mais tarde, estava um bem fininho. Não fazia parte da minha lista de desejos, o que me fez desembrulhá-lo com um cuidado maior do que os demais.

Um livro colorido de capa amarela bem dura, ilustrado com estranhas figuras. Nunca tinha visto nada parecido: cores fortes e contrastantes por onde se espalhavam pequenos blocos de texto. Abri uma página qualquer e comecei a ler em voz alta: Ah, menina tonta, toda suja de tinta mal o sol desponta…

As palavras se encadeavam perfeitamente, num canto ritmado diferente dos que eu ouvia na minha sonata. Era poesia.

E esse presente que veio sem ser pedido, das mãos de uma prima de segundo grau que nem da família era – havia se casado com um primo da mamãe –, que era diferente de nós porque era atriz, porque fumava e dirigia, não ria de piadas de mal gosto e por quem eu nutria uma enorme curiosidade, esse lindo livrinho me arrebatou, a despeito do desinteresse das outras crianças, que não entendiam meu entusiasmo.

Pois ele me acompanhou por toda a vida a partir desse dia, sendo hoje a coisa mais antiga que tenho comigo, resistindo a mudanças de cidade, de rumo, de história, até vir a encontrar seu lugar de honra em minha pequena biblioteca, me ajudando a sempre reafirmar o amor pelo ofício de fazer livros que decidi abraçar.