Nem sempre é possível o diálogo. Tiram de nós, mulheres, quase sempre, o direito à verdadeira expressão do amor, do desejo, até mesmo do horror. Ser mulher é pedir licença, é compreender e esperar, é só parir e cuidar.

Com ela foi assim. Muito cedo, ainda menina, descobriu a urgência do amor. Declarou-o, sincera, em uma carta.

– Leia, escrevi pra você. Só pra você…

Mas não recebeu nenhuma resposta. Teria ele ao menos lido antes que ela encontrasse o papel todo rasgado no pátio do colégio? Conheceu, tão novinha, a alegria e a dor de amar.

E assim cresceu com uma cicatriz em sua alma feminina, achando arriscado se dar, preferindo apenas ficar e receber. Foi princesa recatada e tímida, a ponto de deixar o amor do outro, de tão protetor, tirar dela a força vital e o desejo. A certa altura o papel não lhe coube mais.

– Eu quero você, não preciso de você.

Então preferiu antes ser de todos sem ser de ninguém, e simplesmente se divertir.

De tanto ser livre achou que podia enfrentar o mundo, desafiar o destino. Mas em outras terras foi mal compreendida, quase violada.

– Tira a sua mão de mim! Este corpo não pertence a você!

Sua força vital veio em seu socorro para evitar uma dor maior.

Nem sempre é possível o diálogo. Por isso ela não se incomoda se fala sozinha. E fala, fala do mesmo jeito.