© Denise Faria

Em seus sete anos de vida ela já perdera a conta do número de vezes que tinha ido parar no pronto-socorro. Paizinho e mãezinha haviam até feito amizade com o farmacêutico do bairro, que ajudava como podia. Agora Denise estava ali, sentada num quarto de hospital, esperando pelo pior.

Leonora, sua melhor amiga, estava lá também para o tal “procedimento”, como escutara o médico falar. Todos acharam uma boa ideia as duas passarem por isso juntas, para mantê-las calmas. Mas o hospital, e em especial aquele quarto frio, com suas paredes muito altas e a luz fraca que parecia estar lá para entristecer o lugar, não eram nada tranquilizadores.

Quando o enfermeiro chegou empurrando uma cadeira de rodas, as amigas se olharam. Leonora imediatamente apontou para Denise, com o rosto cheio de medo, e selou seu destino: – Pode ir primeiro.

E foi assim que se viu, em questão de minutos, sentada na sala de cirurgia, com uma luz muito forte apontada para ela. Sobre a boca e o nariz uma espécie de máscara, que lembrava um coador de chá, encharcada de éter. Denise procurou em vão desviar, mas seus sentidos a traíram, e já fora de controle foi fechando os olhos, por mais que quisesse mantê-los abertos.

Acordou uma hora depois sem as amígdalas, pronta para ter uma vida sem tantas emergências. Uma grande taça de sorvete de chocolate, seu favorito, esperava por ela na mesinha ao lado da cama. Sua garganta estava prontinha para dar conta de uma grande tagarela.