Se conheceram na vila onde moravam. Ele tinha 10 anos, Helena tinha 9, mas sempre o alcançava pois fazia aniversário em setembro. Brincavam juntos na rua com outras crianças: pega-pega, esconde-esconde, gato mia, estátua. Vez ou outra montavam peças de teatro, das mais variadas, desde o nascimento de Jesus, papel sempre reservado ao Zé Bento por causa do jeito sério, até a Turma da Mônica, com coreografia ensaiada. Quando chegaram na adolescência ainda viviam juntos, e agora até estudavam na mesma escola, pela primeira vez na mesma sala. Faziam as tarefas logo depois do almoço – para acabarem cedo e se juntarem ao resto da turma em tardes de conversas na casa do Tuco, um garoto que gostava de fazer graça e só podia tomar sol com uma camada grossa de protetor solar, de tão branco que era.

Helena nunca foi boa aluna e sempre recorria a aulas particulares com o Zé, que tinha as melhores notas da sala. Foram muitas tardes de revisões de Física, Química e Matemática. Helena gostava mesmo era de Literatura. Lia romances com final feliz, e adorava inventar histórias de amor onde ela era a protagonista. Já Zé Bento ouvia as histórias e desejava ser o par de Helena, um sonho que ele mantinha em segredo.

Chegando a época do vestibular, o Zé se inscreveu para o curso de Engenharia em meia dúzia de faculdades públicas do Estado. Helena ainda estava na dúvida entre Letras, Artes e Psicologia. Resolveu se inscrever em tudo, em várias universidades da cidade. O Tuco andava envolvido com teatro comunitário e namorava uma americana muito louca que tinha vindo num intercâmbio diretamente de Los Angeles, e decidiu estudar Artes Cênicas, para ser um comediante de stand up no estilo Seinfeld, seriado que assistia com o pai todos os dias. Depois das provas, muita tensão e ansiedade, e vieram as notas. Helena foi aprovada em Psicologia numa faculdade no centro e em Artes na mesma faculdade em que o Tuco ia cursar Teatro. O Zé passou em todas que prestou.

Organizaram uma festa na vila para comemorar a nova fase, e nem se deram conta de que dali pra frente era cada um por si, tendo que tomar decisões importantes sem contar com os amigos que conheciam uma vida toda. Bebidas e risadas, e entre umas e outras o beijo de Zé Bento e Helena finalmente aconteceu, depois de tantos anos juntos, e outro, e mais outro. E assim desabrochou a história de amor entre os dois.

As aulas começaram. O Zé foi morar numa república no interior, onde era a faculdade de Engenharia. Passava a semana fora de São Paulo e ansiava pelas sextas-feiras, quando tomava o ônibus e depois de três horas de viagem estava nos braços de Helena, que acabou escolhendo a faculdade de Artes e pegava carona com o Tuco todos os dias. Nos finais de semana ainda faziam programas com a mesma turma da vila, todos juntos, como antigamente. Nem sempre concordavam sobre o programa escolhido, o Zé queria mais tempo a sós com Helena, mas o sentimento bom de estarem todos juntos, em geral rindo de alguma coisa dita pelo Tuco, aliviava um pouco a pressão de serem agora cobrados por atitudes mais maduras.

Os tempos leves foram passando. Após dois anos o namoro do Zé e Helena engrenou, e eles se sentiam felizes, faziam planos. Ele arrumou um estágio numa estatal no Rio de Janeiro e ia passar os dois meses das férias de final de ano numa plataforma de petróleo. Antes de partir, pediu Helena em casamento. Anel de brilhantes, promessas de amor eterno, de uma família, de uma vida linda. Ela disse sim. Ele foi para o Rio, ela para Porto Seguro com os amigos da vila: a Robertinha, o Salga, a Martina e o Tuco. Foram passar o mês de janeiro sob o sol da Bahia. A viagem foi divertida, Helena disfarçou a saudade de Zé Bento deixando as coisas rolarem, fazendo uma espécie de despedida de solteira à base de muita caipirinha e axé. Tuco era companhia constante, e a fazia dar muitas risadas…

Era uma terça-feira, começo de março. O Zé acabara de chegar em casa quando o telefone tocou. Atendeu. Era Helena. Como era bom ouvir sua voz, que dessa vez estava trêmula. Ouviu atentamente. Ficou uns segundos paralisado, num misto de sentimentos. “Não, meu amor, é uma ótima notícia! Tão feliz por nós! Seremos uma família linda! Estaremos juntos, e esse bebê vem para deixar a gente mais próximo!”

Casaram-se às pressas, numa cerimônia simples, com um almoço na vila oferecido pelos amigos. Estavam todos lá, menos o Tuco, que tinha uma apresentação do grupo de teatro lá no Sul, marcada de última hora. Logo o bebê nasceu, um pouco antes do previsto. Era um menininho lindo, gorducho, bem rosadinho. Não se parecia muito com nenhum dos dois, mas os bebês às vezes são assim. O importante é que o Joca era saudável! Um nenezinho encantador e muito tranquilo.

Zé Bento transferiu a faculdade para São Paulo, alugaram uma casa no mesmo bairro que cresceram. Helena parou o curso de Artes e se dedicava exclusivamente ao papel de mãe. O tempo passava. O Zé trabalhava o dia todo, Helena deixava o Joca na escolinha e ia para a vila passar o dia ajudando sua mãe com uns artesanatos que ela vendia. A vizinhança da vila já não era mais a mesma. Cada um dos amigos seguiu um destino. A Robertinha casou-se com um húngaro e foi morar na Suíça. O Salga tinha tomado o caminho das drogas na época que cursava Medicina e estava internado numa clínica de reabilitação em Cotia. A Martina namorava há anos uma bióloga, a Carol, e estava sempre em algum canto do mundo fotografando bichos. O Tuco se mudara definitivamente para Los Angeles, onde havia sido introduzido numa vida muito louca de sexo, drogas e rock and roll. Mas tinha um relativo sucesso como comediante, aproveitando o sotaque esquisito que diziam que parecia italiano, espanhol ou libanês, ninguém conseguia decifrar. Ele ficava meio puto, porque achava que os americanos ignoravam o Brasil de propósito. Tinha até criado uma rotina em que entrava em cena vestido de Carmem Miranda.

No aniversário de 10 anos do Joca, organizaram uma viagem em família. Zé Bento tirou férias e foram passar uma semana num resort, em Porto Seguro. Helena nunca mais estivera no sul da Bahia, mas não havia um só dia em que não pensasse naquele lugar. O Joca era o queridinho da pousada, e divertia a todos com suas tiradas, a pele bem rosa, típica de paulistano, começando a ficar bronzeada do sol, pela primeira vez amorenada como a do pai.

Voltaram para São Paulo. Uma semana antes das aulas começarem o Joca acordou de madrugada com uma febre muito alta, gritando de dor ao fazer xixi. A mãe deu analgésico e voltaram para a cama. O menino seguiu com febre e dores pelo corpo. Foram ao pronto-socorro, fizeram vários exames e constataram uma infecção. Sete dias de antibiótico e o quadro só piorava. Voltaram ao hospital e o plantonista achou melhor internar o garoto para exames mais detalhados. Helena ficava o dia todo no hospital, enquanto o Zé trabalhava, e o Zé ficava a noite toda ao lado do menino, enquanto Helena ia para casa descansar. Passaram-se dias e nada do Joca melhorar. Não conseguiam saber o que causava a infecção que não cessava.

Era sexta-feira. O telefone tocou e o Zé pediu licença da reunião em que estava para atender. Era Helena. Os anos se passaram e ele ainda sentia felicidade ao ouvir a voz dela do outro lado da linha. Estava chorosa: “O médico tem o diagnóstico. Os rins do Joca pararam de funcionar e estão falando em transplante. Você pode vir agora pra cá?”.

Os trinta minutos até o hospital pareceram uma eternidade. Terríveis fantasias sobre a doença do filho – perdê-lo jamais –, daria a vida por ele. Pensava em como seria a cirurgia para tirar seu rim e transplantá-lo no filho. Será que poderia ser feita naquele dia mesmo? Será que um rim seria suficiente? Lembrou-se do dia do nascimento do menino. Estivera tão ansioso, foram tantos meses para ver a carinha dele, e o garoto crescia bonito e simpático como a mãe. O Zé era um cara sério, de poucos amigos, um pouco carrancudo até. O Joca era engraçado, sociável. Mas agora finalmente ele teria algo do pai. Algo mais importante que a aparência. Algo que salvaria sua vida.

Chegou no hospital e encontrou Helena sentada ao lado da cama do filho. O garoto seguia num coma induzido. Dormia profundamente. Helena contou do diagnóstico e sobre a importância do transplante imediato. “Os doadores mais compatíveis podem ser irmãos, pai e mãe”, disse Helena com um fio de voz, parecia que tinha um nó fechando a garganta. O Zé abraçou a amada: “Fique tranquila, meu amor. Eu tenho muita saúde, posso viver bem com um rim só, e logo nosso filho vai ficar bem, curado e feliz. Vou conversar com o médico, fazemos a cirurgia o quanto antes.”

Helena se levantou e foi até a janela. Pensou nos dias passados ao lado dos amigos, e em especial num dia de sol quente e distante que mudara para sempre a sua vida. Olhou para o marido e, com a voz mais uma vez trêmula, disse: “Me desculpe, meu amor, pelo que vou fazer agora, espero que um dia possa me perdoar. Nunca deixei que soubesse, mas agora não há mais o que fazer. Já liguei para Los Angeles. O Tuco chega pela manhã.”

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