Depois de almoçar, Zeca Bastos resolveu ler sua correspondência na caixa de entrada. Estranhou o nome do remetente em uma mensagem e por precaução passou o antivírus. Nenhum problema encontrado. Leu cuidadosamente, linha por linha, pois se tratava de um convite irrecusável, sedutor, exclusivo para um seleto grupo de escolhidos. Bem característico dele, coçou os cabelos, agora já grisalhos, fez um muxoxo, franziu as sobrancelhas e concluiu que valia pena. Fazia tempo que não ia ao teatro, embora no convite não houvesse nenhuma informação sobre a direção, o elenco e o enredo, só havia a menção sobre a estreia. Mas, quem resistiria a um convite para uma peça encenada no teatro mais caro e mais badalado da cidade? Deu de ombros e intuiu que seria uma viagem surpresa.

No dia agendado, escolheu com parcimônia a roupa que vestiria e levou um choque ao chegar ao local e perceber que já estava lotado. Transitou entre os convidados e reconheceu celebridades, o que o fez inflar mais o peito. Percebeu os comentários murmurados daqueles que discutiam se seria um drama, uma comédia ou mesmo um musical. Alguns, arrogantes, diziam em voz alta que reconheceriam a obra mal iniciasse o primeiro ato, outros, em seus celulares, estavam ávidos por alguma informação. Zeca imprimiu em sua face aquele ar de “eu sei, mas não vou contar” e entrou na sala de espetáculos. Não gostou muito de suas companhias de poltrona porque não reconheceu ninguém do mainstream.

Três toques, apagaram-se as luzes, cortinas abertas. Silêncio na plateia.

No palco um cenário simples: uma poltrona ao fundo, um pufe e o personagem acomodado preguiçosamente, com os pés no apoio, olhos fechados, imóvel.
O primeiro minuto passou devagar, aumentando a expectativa, e nada se moveu, ninguém entrou, nenhum pio. O segundo minuto de ausência total de sinal de vida começou a inquietar, pessoas se mexendo nas cadeiras, cochichos em crescendo, vozes, risadas, palmas e pés batendo no chão. Zeca fazia bicos e bocas, e girava a cabeça para cá e para lá para simular indiferença.

Ao final do sofrido terceiro minuto já havia um grupo exaltado – “aqui ninguém é palhaço”, “onde já se viu” – até que entra todo o elenco de uma vez só, em bloco, correndo, assustados, com maquiagem inacabada e com figurinos incompletos em desalinho.

O ator mais veterano se dirigiu ao público e disse, sem fôlego: “Pessoal, ocorreu um imprevisto trágico, fomos assaltados e ficamos reféns de um bando que exigiu que o diretor fosse ao banco sacar o dinheiro da produção do espetáculo. Disseram que era vingança, não se sabe o porquê, ficamos presos nos camarins e o nosso diretor não voltou”.

Olhares aterrorizados da plateia. Bastos respirava fundo para manter a calma. Alguém desmaiou na fila “J” e algumas pessoas sentadas na “T” correram para ajudar. Só naquele momento uma atriz do elenco estranhou a pessoa recostada na poltrona ao fundo do palco. Caminhou lentamente em direção a ela e deu um berro agudo de terror, daqueles de filme, quando alguém encontra um cadáver. Todos os atores se voltaram e começaram a gritar ao mesmo tempo – “mataram o diretor”, “ele levou um tiro”, “meu Deus, quanto sangue” –, e o pânico entre eles fez a festa da plateia. Zeca Bastos estava pálido, e limpava nervosamente o canto dos olhos.

O ator veterano pediu calma, mas ninguém ouviu, o pandemônio dominava, ocorreram desmaios, a brigada de incêndio do teatro foi acionada. De repente a porta do teatro se abriu e entraram vinte policiais uniformizados, brutamontes, e o chefe deles, à paisana, com sua capa de detetive e uma insígnia na mão. Zeca pensou com seus botões: “onde foi que já vi essa cena? ”. O chefe gritou com voz de barítono: “Todo mundo calado. Ninguém entra, ninguém sai”.

Foi um tal de “você sabe com quem está falando? ”, “isso é um absurdo”, todo mundo em pé, abobado. A vontade de Bastos era de sumir dali, pois tudo no ar indicava perigo.

Enquanto isso, parte do elenco retirava o corpo do diretor e o levava para a coxia. “Não pode, é cena de crime, qualquer um sabe disso”, berrou bem alto o detetive, mas àquela altura tudo era desordem e irracionalidade.

Embaixo, entre os convidados, choro, risos histéricos, protestos e gritos, e em cima não era diferente. O veterano desistiu de conter a onda, atrizes se abraçavam com medo, atores andavam a esmo em monólogos tremidos. Um vizinho de poltrona do Zeca, além de pisar no pé dele, pegou sua echarpe para conter as lágrimas e limpar o nariz.

O delegado então deu um berro: “silêncio!”. E a galera calou, medrosa.

Foi quando todo o elenco começou a gargalhar, e também os policiais, o delegado, até o diretor, que voltou andando ao palco.

As pessoas se dividiram, parte começou a rir, parte ficou irada e xingava: “filhos de uma puta”. “Era uma experiência cênica, uma pegadona”, pensou Bastos, indignado. Foram convincentes, muito. Não era drama nem comédia, era uma farsa. Logo eu que domino a dramaturgia, como fui cair nessa?

Desconsolado, pegou no bolso interno do capote o convite. Devia ter desconfiado, nele estava o nome do grupo: Circo e Patifaria. Deu de ombros, vestiu o casaco, largou a echarpe surrada no chão, arrumou o cabelo desalinhado e sorriu abertamente, para pensarem que ele sabia de tudo desde sempre. Resignadamente, aceitou que fora assistir a uma peça e lhe pregaram outra.

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