Dizem que mau humor é característico de capricorniano. É provável. Tento lidar com esse estigma há muito tempo. Sinto que ele me persegue, sobretudo nos pequenos detalhes. Palavras mal colocadas do tipo “judiação, coitado, fazer o quê?” e outras pílulas acionam o gatilho. Gente ruidosa em cinema, nem é bom pensar. A lista é infindável. Aguentar atrasos nos encontros agendados, longas conversas com assuntos banais, alguém que olha no celular durante o concerto da sinfônica, amigos que pedem meu endereço todas as vezes que vão me visitar, pessoas que enrolam para sair da escada rolante ou que caminham com seu pet na calçada sem se preocupar se tem pedestre atrás com pressa, avôs e avós que querem me mostrar fotos e gracinhas de netos e mais centenas de episódios.

Para mim é quase motivo de assassinato quando estou batendo papo descontraído e surge um indivíduo com a preciosa frase:

– Olha aí, que assunto engraçado, isso dá crônica. Você não acha?

É normal que a frase venha seguida de gargalhadas daquelas do tipo facebookiana. Pior ainda é que o sujeito já engata os primeiros parágrafos. E sempre com palavras óbvias ou imbecis, para ser gentil. É claro que procuro disfarçar, coloco meus óculos escuros, sempre à mão (os idiotas estão de prontidão) para não atingi-los com meu olhar apocalíptico. Só porque sou cronista todo mundo se acha no direito de se meter e querer “me inspirar”. Só rindo, mesmo.

Ouvi falarem que estou ficando rabugenta. Isso é o fim. Só porque estou com meu nível de tolerância abaixo de zero, não suporto pentelhações, chuto a mesa quando contrariada e estou dando razão para Sartre, já começam a difamar.

Rabugenta é a ponte que caiu. Logo eu que faço questão de avisar pelo menos uns cinco minutos antes de tocar a campainha de alguém, que sempre pago exatamente o que como quando estou no restaurante com amigos, que nunca ligo antes das sete da manhã, que sou sincera quando não gosto do presente, assim os parentes não erram mais…

Além disso, já tenho histórias suficientes na cabeça, não preciso da ajuda de ninguém para traduzir esta cidade, tão cheia de gente maluca, que escolhi para viver. Se ainda não sabem, cronista não é repórter! E sabe o que mais? Rabugenta já morreu, quem diz o que acha aqui sou eu.

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