De todas as vezes que caí, só uma foi pra cima. Foi quando o mundo acabou, estava tudo de pernas pro ar. Depois voltou ao normal. Saudade daquele tempo…

Hoje só sei cair para baixo, está tudo previsto e combinado. Parece que a gravidade fez um acordo para deixar as coisas mais chatas, quadradas, presas, e sem poesia. Parece que o mundo carrega uma elasticidade que me devolve ao estado mais simples. Tudo se recicla numa reedição revista e repetida. A histórica avança em ilusões de ótica… Apesar disso, eu avanço!

A liberdade é uma rima de desordenadas combinações. A escolha, um condicionamento que joga com as regras e os limites. A ação, um ato de obediência teimosa a favor da ordem das coisas. O ser humano teima em sua vulgaridade e capacidade infinita de não se perceber enredado em sua própria tragédia. A maioria apela para saídas vazias, pratica a alienação de si e do mundo, enche a cara e vai se apropriando de coisa nenhuma com tom de sabedoria.

Ai, se eu soubesse o que sei agora!

Cair novamente no surto de Eros sem que a gravidade vire os meus pés rapidamente para o chão. Caminhar pelo teto e mesmo assim sentir-me protegida por tudo em volta. Aliás, nem sequer perder tempo em tentar dimensionar o perigo. Experimentar a sensação de liberdade do corpo e da mente.

Mas sei que ainda assim as minhas opções seriam muito limitadas… Precisaria me livrar da contemporânea tragédia humana, e reencontrar a esperança na caixa de Pandora. Reavaliar a visão de mundo em que acabei me enredando e reaprender a pisar em nuvens sem querer que nada seja firme, dure ou me sustente.

Somente uma vez caí pra cima. Quando o mundo acabou eu estava dormindo e acordei no teto. Ainda era curta a minha história de vida, e todos os barulhos eram novos e estranhos. Tudo flutuava, e mesmo assim me sentia bem com os pés no teto, de cabeça para baixo, fortalecida e crédula. A terra se desdobrava, e eu a admirava, calma e confiante. Nada me atrapalhava, e também pouco me preocupava em perder o equilíbrio e o controle da situação. E se pudesse vasculhar em meu íntimo, recordo que não buscava a sensatez de hoje.

Demorei anos para entender, mas fico feliz de saber que minha teoria foi comprovada. A lei da gravidade tem suas brechas. Sempre desconfiei disso. Vou novamente por elas.

© Crônica coletiva