A cena é constrangedora para mim: ao meu redor cerca de vinte familiares, entre filhos, noras, genros, netos e bisnetos com seus desconhecidos parceiros, além de três risíveis vizinhos e alguns poucos amigos sobreviventes, prontos para cantar mais uma vez a fatídica musiqueta.

Hoje faço noventa e três anos, não sei como ainda lúcido e com toda a memória dos sofrimentos vivos em minha mente. Revivo cada fato o tempo todo, parece que o presente se fundiu ao passado, e este deixou de ser. Tudo é agora, pulsante, sem saudade e saudosismo.

É cristalino que ninguém ao meu redor tem a menor ideia do que vivencio, do que sinto em meu coração, do que faz meus músculos estremecerem, de quando em vez, molhando minha calça. Todos me veem como um velho simpático e folclórico, uma peça de coleção, uma estátua viva, feito aquelas que ficam nas ruas e nos parques a troco de moedinhas. Aparecem ocasionalmente, segundo eles em dias especiais, como hoje.

Sorrio e aguço minha visão e meus ouvidos, porque de fato aprecio a presença dos meus queridos, mesmo sendo rareadas. Mas podiam me dispensar da contrição das suas culpas pelo abandono sutil, pela obrigação de se fazerem presentes e pela falsa felicidade diante do meu vigor moral em permanecer vivo. A penitência parece ser minha, porque me ameaçam com aquela música, que para mim sempre foi idiota e insuportável.

Começou! “Parabéns a você…”. Socorro, alguém entenda meu olhar, me vejam, me traduzam, reconheçam que não só o coração pulsa, mas que as emoções ainda resistem. 

Já estou segurando, meio trêmulo, claro, a faca para cortar o bolo e pensar um desejo secreto. Respiro fundo só em imaginar alguém me perguntando que raio de desejo é esse. A letra avança, ingênua, inocente, mas ferina para mim. “Muitos anos de vida”. Que verso perverso, quanta ironia, puro sadismo com chibatadas no mais íntimo esconderijo de um ser vivente.
Vai começar o “pique-pique”.

Uma explosão de alegria hipócrita fora e uma profunda tristeza dentro, uma melancolia que nenhum compositor clássico conseguiu traduzir em bemol ou sustenido. Juro que jogo a faca pro alto e me impulsiono para um mortal triplo twist carpado se alguém puxar o “Com quem será”.

© Crônica coletiva