Andava na minha frente com passos saltitantes. E eu mantendo o olhar naquela figura que parecia conhecer de maneira perfeita e confiante sua meta. Ele cumprimentava todos que surgiam pela calçada. Primeiro, um alô com batidinhas no ombro do florista, o seu Joaquim, mano do seu Manoel, o portuga encrenqueiro da padaria da esquina. Depois, um abraço no garçom do restaurante argentino, um ruivinho sardento que não deve ter mais de dezoito anos e esperava a freguesia fumando um cigarro embaixo do toldo azul e branco. Passou pela rodinha de manobristas da clínica de saúde e parou para dizer algum gracejo.

Sua idade provável encostava nos oitenta. Nas mãos, levava uma pasta que podia conter documentos, ou era só mesmo para impressionar os incautos. Fiquei curiosa para saber. Tudo nele era branco. O cabelo, o pouco que lhe restava, a cor da pele trincada pelo tempo, o pedaço visível das pernas e o uniforme do time de futebol que ostentava.

Aquilo me intrigava. O que motivaria alguém com uma vida já bem vivida acordar de manhã e escolher aquele tipo de roupa para sair às ruas. Por pudor ou medo de comentários, sei lá, sempre me preocupei em andar bem arrumada. Minha mãe, que Deus a tenha, vivia me aconselhando, mesmo quando eu já contava mais de 40: – Filha, vai sair assim? Nem um batom, um casaquinho? Aquilo me deixava doida, mas hoje me pego tendo o mesmo tipo de reação quando avisto um casal de jovens no concerto do Municipal, ela com sua melhor beca e ele de jeans e camiseta da equipe pela qual é alucinado. “Nem um paletozinho?”

E quando vejo um pai com seu bebê, ambos vestidos com a camisa do craque adorado? Espanto-me com a ditadura das preferências paternas quando se trata de um filho homem. É bem mais raro presenciar uma cena assim com mãe e filha. Se bem que minha vizinha tem verdadeira obsessão pelos personagens do Maurício de Souza, e sempre me encontro com ela e a filhinha, de um ano e meio, as duas vestidas de Magali, Mônica e até de Cebolinha! Vai entender.

A Valdete, minha ajudante nas tarefas domésticas, tem uma coleção variada dessas camisas. Um dia já estava a ponto de elogiar o desprendimento dela, quando me explicou: “A senhora nem sabe, né? Pobre tem um time do coração, mas nóis usa as camisa que a gente ganha da patroa, e daí num faz desfeita. Usa também dos concorrente”. Paixão ou necessidade. Cada um com seu motivo.

Posso me penitenciar. Fui incompetente no esporte desde criança, e sempre preferi as aulas de artes às de educação física. Jamais consegui escolher uma modalidade para torcer, nunca tive ídolos, desconheço regras. Mas sempre levarei a dúvida comigo: por que definirem o traje de quarta-feira a partir de um clube que nem os conhece? Só pode ser coisa de homem mesmo, paixão sem contrapartida nem fidelidade, já que os jogadores vivem mudando de escrete. Permanecem eternamente ligados a um nome, num amor platônico que mais se assemelha a amor de filho pela mãe, até nas horas em que a harmonia desanda num xingamento que parece colocar cada um num time.

E assim, com esses pensamentos, continuei meu caminho, mas perdi o companheiro de rota. Deve ter entrado na padaria do Mané para discutir o resultado do jogo de ontem. A vida segue.