O que seria de mim sem açaí? Provavelmente uma pessoa mais chata, com menos energia e, talvez, mais magra. Mas, quem se importa? Obviamente, eu.

Fui a uma nutricionista semana passada, daquelas que pede para cortar tudo. Queijo, pão, pão de queijo, arroz branco, doces, molho branco, açúcar e, no final, uma pausa dramática, tive a certeza de que ela me pediria para cortar os pulsos também, e daí a querida me solta “tomar açaí quase todo dia não rola! Corta também! Com xarope de guaraná, jamais”.

Já se passaram três semanas de dieta. Nenhum tipo de farinha, zero açúcar, nada de refrigerantes, azeite com moderação, três litros de água diariamente e nem uma colherzinha de açaí. Resultado: dois quilos e duzentos gramas a menos de massa gorda, mau humor crônico, brigas constantes com o marido e uma crise de abstinência daquelas.

Sonho com açaí, sinto cheiro de açaí em todos os lugares, olho para a sopa de beterraba que costumo fazer à noite e vejo uma tigela de açaí geladinho, cheio de granola…

Hum…água na boca… Açaíííí!

Pela manhã, o estômago ainda segue mandando o velho código cor rubi para o cérebro. Ao toque do despertador é acionado em meu aparelho digestivo um buraco negro que pede a fruta. Está na hora do açaí. A nutricionista nazista não me avisou que isso poderia ocorrer.

O açaí tem que estar no cardápio matutino para ser servido. Como alterar com apenas a ordem “corta!” anos de mecanismos biológicos dopados pelo consumo da maravilhosa fruta da Amazônia?

Hum…saliva na boca… Açaííí!

O corpo fala. Já tinha ouvido falar disso nas revistas femininas. Parece que todos os alimentos que abandonei nas últimas semanas nunca chegaram a fazer sentido para mim. Tirando, é claro, o açaí

Resolvi ouvir meu corpo. Dois quilos e duzentos gramas são mais do que suficientes para me sentir mais magra. Passei na padoca ao lado de casa e pedi:

– Seu Anselmo, me vê o de sempre, por favor?

– O de 200 g ou de 500 g?

– Até parece que não me conhece!

– Pensei que estivesse de dieta.

– Hum… Açaí!

– Saindo o de 500 g com granola, e caprichado!

Voltei a viver.

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