O ideal das Cruzadas, a travessia dos oceanos e, mais próxima de nosso tempo, até a memória em cacos que turistas carregam em suas bagagens quando visitam Berlim não deram em nada! Muros e mais muros, físicos, políticos e psicológicos, nos separam desde sempre. E teremos que aprender a conviver com a certeza que, de tempos em tempos, mais muros e distâncias crescerão. Entra nessa nova lista a internet, apesar da grande massa ainda se enganar com o contrário.

Maria del Carmen chegou por aqui vinda de Cuba há menos de três meses e já deu conta de entender tudo isso. Chega carregando em sua bagagem de apenas dezenove anos de vida mais de cinquenta do histórico embargo comercial americano a seu país. Além de ter nascido geograficamente numa ilha, também viveu num mundo dentro de um muro que não se acaba só derrubando políticas do passado.

Em nosso microcosmo os muros estão cada vez mais altos e numerosos. Minha casa fica no mesmo bairro em que vivem meus parentes e, se resolvo visitá-los, entre as duas casas tenho que transpor pelo menos oito grades. Erguemos barreiras para nos proteger e deixamos a liberdade do lado de fora. Daqui a pouco começaremos a jogar óleo do alto de nossos castelos, a exemplo de nossos ancestrais da Idade Média.

Penso também nos meus muros internos. Construídos ao longo dos anos, me separando da minha íntima verdade. Alguns construídos para me enquadrar a uma verdade coletiva hipócrita, outros para guardar minha hipocrisia interna. Penso nos muros que criei entre mim e alguns, tantos erguidos para me proteger, tantos outros para evitar confrontos. Vivo sempre no dilema Tostines. Será que a vida me impôs tais construções, ou construí muros para me impor diante da vida?

Mas a resposta já foi dada. E com essa última questão me coloco frente a frente com a realidade: por mais que a mídia tente me vender a ideia de que acaba de renascer o anticristo no hemisfério Norte, um líder político que quer subir um muro físico e criar barreiras de acesso ao seu país, vejo que não há nada de novo entre as suas ideias e as da realidade que me pertence.

Esse tal muro físico em nada difere do embargo cubano vivido por Maria Del Carmem. Também não difere dos muros que meus parentes e vizinhos construíram na tentativa de zelar por sua segurança. E muito menos daquela muralha mais íntima com a qual me visto todos os dias para simplesmente sobreviver socialmente.

Sim, somos nós os criadores de todas essas muralhas. E o recém-nascido anticristo entrou em cena como ator do nosso alter ego, notado somente porque de forma escabrosa nos enxergamos nele.

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