Conferir é uma arte para poucos, diria. A paciência de manusear uma lupa e verificar o número de série de um selo novo da coleção, contar e recontar os envelopes em ordem alfabética de um arquivo, passar em revista todas as camisas, paletós e gravatas do guarda-roupa, isso e tantos outros gestos do mesmo naipe eu sempre fiz com prazer, mas ultimamente algo tem mudado. Não me delicio mais como antes, as coisas começaram a ficar enfadonhas, chatas, me enerva repetir uma contagem, já sei o resultado.

Nunca vi isso antes, uma melhora espontânea e gradual. De perfeccionista estou passando a baguncionista, deixo para depois, relaxo e esqueço, parto para outra ação, não termino, e nem me angustio.

É muito estranho ser normal.

Alguém bate na porta e pergunta se estou bem. Depois que fiquei viúvo, qualquer tentativa de ficar sozinho e descansar é interpretada como tristeza. Mas não estou triste, nem deprimido, e nem perdido. Tenho consciência que meus dias mudaram, e quero fazer disso uma coisa positiva. Ficar no meu quarto simplesmente passando um tempo comigo é tudo que preciso. Me deixem em paz!

Chegar até este momento, em que largo a angústia num canto do cômodo e vou pensar em outra coisa, não foi uma escolha pura e simples, tem sido um processo. De tanto me colocar como comandante da tropa me esqueci de ser mais humano. Então está na hora de zerar o esforço exigido pelo comando e ser apenas mais um do time. E àquele que sempre contou comigo para decidir, aviso que de agora em diante sou só mais um. Não vou mais contar, nem controlar, nada.

Será que consigo? Estou fazendo a minha parte deixando as coisas por aí. Até já passou pela minha cabeça não pagar uma conta só para ver qual é a sensação. Talvez alguém pague para mim, como sempre fiz com meus filhos. Posso dizer que simplesmente esqueci e fiquei absorto com o último livro do Valter Hugo Mãe. Toda vez que termino uma meia dúzia de páginas, paro, fecho os olhos e me transporto para as histórias. Nunca foi tão bom passar dias a fio viajando sem sair do lugar, só me mexer para trocar de posição, fazer xixi e tomar minha limonada suíça cowboy. Não me orgulho muito disso, mas nunca fui fã de leitura. Achava coisa de desocupado.

Ainda não sei aonde isso vai dar, mas está uma delícia descobrir novos modos de ser. Como a gente é besta de insistir em ser único e monótono, e como é bom permitir-se múltiplo e mais livre.

Só não sei se aguento. Até aqui, tudo bem.

© Crônica coletiva